ÊXTASE: CONTO - KATHERINE MANSFIELD

Êxtase
(1918)

Embora tivesse trinta anos, Bertha Young ainda passava por momentos como aquele, quando queria correr em vez de andar, dar passos de dança subindo e descendo da calçada, brincar de rolar um aro, jogar algo para cima e apanhar no ar ou ficar parada e apenas rir – à toa –, simplesmente rir à toa.

O que fazer se você tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da própria rua, de repente é tomada por uma sensação de êxtase, êxtase absoluto! – como se tivesse engolido um pedaço luminoso daquele sol da tarde e que ardesse em seu peito, irradiando uma chuvinha de centelhas em cada partícula, até cada uma das pontas dos dedos...?

Ah, não há maneira de explicar isso sem soar “embriagada e confusa”? Como a civilização é estúpida! Por que ter um corpo se é preciso mantê-lo fechado em um estojo como um raro, um raríssimo violino?

“Não, isso a respeito do violino não é exatamente o que eu quero dizer”, pensou, ao correr degraus acima, tatear na bolsa em busca da chave – que ela esquecera, como sempre – e chacoalhar a caixa de correio.

– Não é bem isso, porque... obrigada, Mary. – Ela entrou no vestíbulo. – A babá já voltou?

– Sim, Madame.

– E as frutas, chegaram?

– Sim, Madame. Chegaram.

– Pode trazer as frutas para a sala de jantar? Vou fazer um arranjo antes de subir.

A sala de jantar estava escura e bem fria. Ainda assim, Bertha tirou o casaco; não podia suportar aquele aperto nem mais um instante, e o ar frio envolveu seus braços.

Mas em seu coração ainda permanecia aquele local luminoso e brilhante – aquela chuva de pequenas centelhas espalhando-se. Era quase insuportável. Ela quase não ousava respirar por medo de intensificá-la, contudo, respirava, respirava profundamente. Quase não ousou olhar para o espelho frio – mas olhou, e o espelho lhe devolveu uma mulher radiante, sorrindo, com lábios trêmulos, com grandes olhos escuros, e um ar de escuta, de espera por algo... divino... e ela sabia que algo aconteceria... inevitavelmente.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja, uma tigela de vidro e um prato azul, muito bonito, com um brilho estranho, como se tivesse sido mergulhado em leite.

– Posso acender a luz, Madame?

– Não, obrigada. Estou enxergando muito bem.

Havia tangerinas e maçãs com manchas rosadas. Algumas peras amarelas, macias como seda, algumas uvas verdes cobertas por um brilho prateado e um cacho grande de uvas púrpuras. Estas, ela comprara para que combinassem com o tom do novo tapete da sala de jantar. Sim, isso parecia muito improvável e absurdo, mas foi exatamente por isso que as comprara. Na loja, ela havia pensado: “Preciso ter algumas em tom púrpura para que a mesa combine com o tapete.” E isso parecera fazer sentido naquele momento.

Quando terminou de fazer duas pirâmides com aquelas formas arredondadas e brilhantes, ela se afastou da mesa para avaliar o efeito, e realmente era muito interessante. Como a mesa escura parecia se dissolver na penumbra, o prato de vidro e a tigela azul pareciam flutuar. Era tão incrivelmente bonito, de acordo com seu humor daquele momento, claro... e ela começou a rir.

“Não, não. Estou ficando histérica.” Pegou a bolsa e o casaco e correu pelas escadas acima até o quarto do bebê.

A Babá estava sentada em uma mesa baixa dando o jantar à Pequena B, após o banho. O bebê usava uma camisola de flanela branca e um casaquinho de lã azul, o cabelo fino e escuro estava penteado, preso em um rabinho engraçado. Ao ver a mãe, ela olhou para cima e começou a pular.

– Agora, minha linda, coma tudo e seja uma boa menina – disse a Babá, movendo os lábios de um jeito que Bertha conhecia, e aquilo significava que mais uma vez ela viera ao quarto do bebê no momento errado.

– Ela se comportou bem, Babá?

– Ela foi um docinho a tarde inteira – murmurou a Babá. – Fomos ao parque e, quando a tirei do carrinho, um cachorro grande apareceu e colocou a cabeça no meu joelho. Ela agarrou a orelha dele e puxou. Ah, devia ter visto.

Bertha quis perguntar se não era muito perigoso deixá-la agarrar a orelha de um cachorro desconhecido. Mas não ousou. Ela se levantou olhando para as duas, com as mãos caídas ao lado do corpo, como a garotinha pobre diante da garotinha rica com a boneca.

A menina a olhou outra vez, fitou-a, e então sorriu de um modo tão encantador que Bertha não conseguiu evitar pedir:

– Ah, Babá, me deixe terminar de dar o jantar dela enquanto você arruma as coisas do banho.

– Bem, Madame, não se deve trocar a pessoa que cuida dela quando está comendo – disse a Babá, ainda falando baixo. – Isso a deixa agitada, é bem capaz de perturbar o bebê.

Como isso era absurdo. Por que, então, ter um bebê se ele deve ser mantido – não em um estojo como um violino raro, raríssimo – e sim no colo de outra mulher?

– Ah, eu preciso! – disse ela.

Muito ofendida, a Babá lhe entregou o bebê.

– Não a deixe agitada depois de jantar. A senhora sabe que a agita, Madame. E depois ela me dá tanto trabalho!

Graças a Deus! A Babá saiu do quarto com as toalhas de banho.

– Agora eu tenho você só para mim, coisinha rica – disse Bertha, enquanto o bebê se recostava em seu colo.

Ela comia com prazer, esticava os lábios na direção da colher e, então, balançava as mãozinhas. Algumas vezes, não deixava a colher entrar na boca; e outras, logo que Bertha a enchia, ela jogava tudo aos quatro ventos.

Quando a sopa terminou, Bertha virou-se para a lareira.

– Você é um amor... Você é um amor! – disse, beijando seu bebê quentinho. – Estou orgulhosa de você. Eu adoro você. Adoro.

E de fato ela adorava tanto a Pequena B: quando ela jogava o pescoço para a frente, seus delicados dedinhos do pé que brilhavam translúcidos à luz das chamas da lareira – e toda aquela sensação de êxtase voltou outra vez, e outra vez ela não sabia como expressá-la: o que fazer com aquilo?

– A senhora foi chamada ao telefone – disse a Babá, retornando triunfante e tomando a sua Pequena B.

Ela correu para o andar de baixo. Era Harry.

– Ah, é você, Ber? Veja só. Vou me atrasar. Vou pegar um táxi e chegar o mais rápido que puder, mas então sirva o jantar em dez minutos, pode ser? Está bem?

– Sim, claro. Ah, Harry!

– Sim?

O que tinha a dizer? Não tinha nada a dizer. Ela queria apenas ficar mais um momento perto dele. Não podia gritar simplesmente: “Não foi um dia divino?”

– O que é? – insistir a vozinha do outro lado.

– Nada. Entendu – disse Bertha, e pôs o fone no gancho, pensando em quanto a civilização era mais do que estúpida.

Eles tinham convidados para o jantar. Os Norman Knights – um casal perfeito: ele estava para inaugurar um teatro, e ela estava muito interessada em decoração de interiores –, um rapaz, Eddie Warren, que acabara de publicar um pequeno livro de poemas e que todos convidavam para jantar, e um “achado” de Bertha chamado Pearl Fulton. Bertha não sabia o que a Srta. Fulton fazia. Elas haviam se conhecido no clube e Bertha caíra de amores por ela, já que sempre caía de amores por mulheres bonitas que tinham algo estranho a respeito de si.

O mais curioso era que, embora elas tivessem se encontrado várias vezes e realmente conversado, Bertha não conseguia decifrá-la. Até certo ponto, a Srta. Fulton era, de maneira extraordinária, incrivelmente franca, mas o ponto certo estava lá, e além disso ela não iria.

Havia algo além disso? Harry disse “não”. Achava-a um tanto enfadonha, e “fria como todas as louras, talvez com um toque de anemia no cérebro”. Mas Bertha não concordava com ele; ao menos, ainda não.

– Não, a maneira que ela tem de inclinar a cabeça um pouco para o lado, sorrindo, há algo por trás disso, Harry, e eu preciso descobrir o que é.

– Deve ser um bom estômago – respondeu Harry.

Ele fazia questão de provocá-la com respostas do tipo... “fígado insensível, minha querida” ou “apenas flatulência” ou “mal dos rins”... e assim por diante. Por alguma razão estranha, Bertha gostava, e quase o admirava por isso.

Ela foi para a sala de visitas e acendeu a lareira; em seguida, pegou as almofadas que Mary arrumara com tanto cuidado, jogando-as de volta às poltronas e aos sofás, uma por uma. Isso fez toda a diferença: imediatamente a sala se encheu de vida. Quando ia jogar a última, surpreendeu-se abraçando-a contra o corpo – de uma forma apaixonada, apaixonada. Mas isso não extinguia o fogo em seu peito. Ah, não, teve um efeito contrário!

As janelas da sala de visitas se abriam para um balcão com vista para o jardim. E no outro lado, contra o muro, havia uma árvore alta e delgada, uma pereira na mais plena e generosa floração; erguia-se perfeita, como se pairasse contra o céu em tom de jade. Mesmo àquela distância, Bertha não pôde deixar de notar que não tinha um só botão ou pétala caídos. Embaixo, nos canteiros, as tulipas vermelhas e amarelas pareciam curvar-se na penumbra, com o peso das flores. Um gato cinzento rastejou pela relva, arrastando a barriga, e outro, negro, o seguiu como uma sombra. A aparição dos gatos, tão veloz e precisa, provocou em Bertha um estranho calafrio.

– Os gatos são criaturas que dão arrepios! – balbuciou e, afastando-se da janela, começou a andar de um lado para o outro...

Como os junquilhos aromatizavam a sala quente! Muito forte? Ah, não. E ainda assim, atirou-se numa poltrona, como se estivesse recuperada, e pressionou as mãos contra os olhos.

– Estou tão feliz... tão feliz! – murmurou.

E ela parecia ver a maravilhosa pereira dentro de suas pálpebras com os botões completamente em flor como um símbolo da própria vida.

Sem dúvida – sem dúvida, ela tinha tudo. Era jovem. Harry e ela estavam apaixonados como sempre e se davam maravilhosamente bem, e eram mesmo bons companheiros. Tinha um bebê encantador. Não precisavam se preocupar com di­nheiro. A casa e o jardim os satisfaziam plenamente. E os ami­-gos – modernos, amigos incríveis, escritores e pintores e poetas ou pessoas interessadas em questões sociais: exatamente o tipo de amigos que desejavam ter. E havia os livros, e havia a música, e ela encontrou uma modista maravilhosa, e eles iriam para o exterior no verão e a nova cozinheira deles fazia omeletes maravilhosas...

– Estou sendo ridícula. Ridícula!

Ela se sentou; mas se sentiu muito tonta, quase embriagada. Deve ter sido a primavera.

Sim, foi a primavera. Agora estava tão cansada que não podia se arrastar até o andar de cima para se vestir.

Um vestido branco, um colar de contas de jade, sapatos e meias verdes. Não foi intencional. Ela pensou nessa combinação horas antes de parar diante da janela da sala de visitas.

As pregas do vestido farfalharam levemente quando ela entrou no vestíbulo e beijou a Sra. Norman Knight, que tirava um casaco laranja divertidíssimo, com uma fileira de macacos pretos em torno da bainha e que subiam na frente da roupa.

– ... Por quê? Por quê? Por que a classe média é tão enfadonha, sem nenhum senso de humor?! Minha querida, estou aqui somente por um acaso. Norman foi um anjo protetor. Porque meus queridos macaquinhos perturbaram tanto a todos no trem que no fim um homem simplesmente me devorou com os olhos. Não riu, não achou graça, o que eu teria adorado. Não, apenas encarou, e me perturbou o tempo todo, o tempo todo.

– Mas o melhor de tudo foi – disse Norman, colocando um monóculo com aro de tartaruga no olho –, você não se importa que eu lhe conte isso, Face, não é? (Na casa deles, e entre os amigos, se chamavam Face e Mug.) O melhor de tudo foi quando ela, sentindo-se totalmente farta daquilo, virou-se para a mulher ao seu lado e disse: “Você nunca viu um macaco?”

– Ah, sim! – A Sra. Norman Knight também riu. – Isso também não foi o máximo?

E algo mais engraçado era que agora, sem o casaco, ela de fato parecia uma macaca muito inteligente, que até fizera para si mesma, com cascas de banana, aquele vestido de seda amarela. E seus brincos de âmbar pareciam duas pequenas castanhas penduradas.

– Essa é uma queda trágica, uma queda trágica! – disse Mug, parando diante do carrinho do bebê. – Quando o carrinho entra na sala... – E ele não completou o resto da citação.

A campainha tocou. Era o esbelto e pálido Eddie Warren, (como sempre) em um estado de desespero agudo.

– Esta é a casa certa, não é? – suplicou ele.

– Ah, acho que sim; espero que sim – disse Bertha alegremente.

– Tive uma experiência horrível com o motorista de táxi; ele era tão sinistro. Não conseguia fazê-lo parar. Quanto mais eu batia e chamava atenção, mais rápido ele ia. E à luz da lua essa figura bizarra com a cabeça chata curvada sobre o volantezinho...

Ele deu de ombros, puxando uma imensa echarpe de seda branca. Bertha notou que as meias eram brancas também: muito charmoso.

– Mas que horror! – gritou ela.

– Sim, realmente foi – disse Eddie, seguindo-a até a sala de visitas. – Eu me vi levado eternamente em um táxi atemporal.­

Ele conhecia os Norman Knight. De fato, iria escrever uma peça para Norman Knight, quando o projeto do teatro avançasse.

– Então, Warren, como vai a peça? – perguntou Norman Knight, deixando o monóculo cair e proporcionando ao olho a chance de respirar, antes de atarrachá-lo de novo debaixo da lente.

– Ah, Sr. Warren, que meias engraçadas! – comentou a Sra. Norman Knight.

– Eu estou tão contente por ter gostado delas – disse ele, olhando os próprios pés. – Elas parecem ter ficado bem mais brancas desde que a lua apareceu. – E virou o seu rosto jovem, magro e tristonho para Bertha. – Há uma lua, você sabe.

– Tenho certeza de que sempre há, sempre! – Ela queria gritar.

Realmente ele era uma pessoa das mais atraentes. Mas Face também era, agachada diante do fogo com suas pregas de casca de banana, e também Mug, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia a cinza:

– Por que o noivo deve se atrasar?

– Ora, aí está ele.

Bang, a porta da frente se abriu e se fechou.

– Olá a todos. Desço em cinco minutos – gritou Harry.

Eles ouviram-no subir as escadas. Bertha não podia deixar de sorrir: ela sabia como ele adorava agir sob forte tensão. Afinal, qual é a importância de mais cinco minutos? Mas ele fingiria para si mesmo que importavam além da conta. E então faria questão de chegar à sala extravagantemente calmo e controlado.

Harry tinha tanto gosto pela vida. Ah, como ela apreciava isso nele. E sua paixão pela luta – por encarar tudo que surgia contra si como mais um teste de poder e coragem –, isso ela também entendia. Mesmo quando ocasionalmente podia lhe fazer parecer um pouco ridículo àqueles que não o conheciam bem... Mas havia momentos nos quais ele se atirava numa batalha onde não havia batalha... Ela conversava e ria e, antes de sua chegada (justamente como imaginara), até esquecera que Pearl Fulton não havia aparecido.

– Será que a Srta. Fulton se esqueceu?

– Acho que sim – disse Harry. – Ela tem telefone?

– Ah! Agora vem um táxi.

E Bertha sorriu com aquele ar de propriedade que sempre assumia quando suas descobertas femininas eram recentes e misteriosas.

– Ela vive em táxis.

– Vai engordar se continuar assim – disse Harry friamente, tocando o sino para o jantar. – Uma perigosa ameaça para as mulheres louras.

– Harry... não – advertiu Bertha, rindo para ele.

Outro momento passou enquanto esperavam, rindo e falando, esbanjando tempo à toa, sem perceber. E então a Srta. Fulton chegou, toda de prateado, com uma fita cor de prata prendendo o cabelo louro muito claro, e entrou sorrindo, com a cabeça um pouco inclinada para o lado.

– Estou atrasada?

– Não, de maneira alguma – disse Bertha. – Entre.

Bertha a pegou pelo braço e seguiram para a sala de jantar.

O que havia no toque daquele braço frio que podia atiçar – atiçar – e começar a arder – a arder aquela chama do êxtase com a qual Bertha não sabia lidar?

A Srta. Fulton não olhou para ela; mas raramente olhava para as pessoas diretamente. As pálpebras pesadas cobriam parte dos olhos e um meio sorriso estranho ia e vinha dos lábios como se vivesse mais de ouvir do que de ver. Mas de repente Bertha entendeu, como se o olhar mais longo e íntimo tivesse acontecido entre as duas, como se tivessem dito uma para a outra: “Você também?”, que Pearl Fulton, mexendo a bela sopa vermelha no prato cinza, estava sentindo exatamente o que ela sentia.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, suas colheres levantavam e abaixavam – guardanapos passados ligeiramente nos lábios, pão esmigalhado, tilintar de garfos e copos, e conversas.

– Eu a encontrei no Alpha Show, criaturinha esquisitíssima. Não só tinha cortado o cabelo, mas parecia ter tirado um bom pedaço das pernas e dos braços e do pescoço e do pobre narizinho também.

– Ela não é muito liée a Michael Oat?

– O que escreveu Love in False Teeth?

– Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Decide se matar. Dá todas as razões por que deve fazer isso e por que não deve. E assim que ele muda de opinião tanto para fazer ou deixar de fazer: cai o pano. Não é má ideia.

– Como vai chamar isso: “Problema de estômago”?

– Acho que já vi a mesma ideia em uma revista francesa bem desconhecida na Inglaterra.

Não, eles não tinham a mesma sensação. Eles eram uns queridos – queridos –, e ela adorava tê-los ali, à sua mesa, e oferecer comida e vinhos deliciosos. Para dizer a verdade, desejava lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo compunham, como pareciam estimular uns aos outros e como lhe faziam lembrar uma peça de Tchekhov!

Harry estava se deleitando com o jantar. Era parte de – bem, não exatamente de sua natureza, e certamente não de sua pose – seu disso ou daquilo, falar sobre comida e se vangloriar de sua “paixão imodesta pela carne branca da lagosta” e “sorvetes de pistache – verdes e frios como as pálpebras das dançarinas egípcias”.

Quando olhou para ela e disse: “Bertha, esse soufflée está excelente!”, ela quase poderia chorar com um prazer infantil.

Ah, por que ela sentia tanta ternura em relação ao mundo todo esta noite? Tudo estava bom – e correto. Tudo que acontecia parecia preencher novamente sua taça transbordante de êxtase.

E, ainda, no fundo da sua mente, estava a pereira. Agora deveria estar prateada, à luz da lua do pobre Eddie, prateada como a Srta. Fulton, que se sentava ali girando uma tangerina nos dedos finos, tão pálidos que pareciam emitir luz.

O que ela simplesmente não podia entender – o que era fenomenal – era como fora capaz de adivinhar o estado de espírito da Srta. Fulton de maneira tão precisa e instantânea. Não duvidou de que estava certa, nem por um momento, e mesmo assim o que a faria continuar? Quase nada.

“Acho que isso realmente acontece muito, muito raramente entre as mulheres. Nunca entre os homens”, pensou Bertha. “Mas, enquanto eu estiver fazendo café na sala de visitas, talvez ela dê um sinal.”

O que queria dizer com isso ela não sabia, e o que aconteceria depois daquilo ela não podia imaginar.

Enquanto pensava assim, ela se viu falando e rindo. Pre­cisava falar por causa de seu desejo de rir.

“Preciso rir ou vou morrer.”

Mas quando percebeu a maniazinha engraçada de Face enfiar algo dentro do decote – como se também mantivesse uma pequena e secreta reserva de nozes ali – Bertha precisou enfiar as unhas nas palmas das mãos para não rir muito.

Finalmente estava terminado. E:

– Venham ver minha cafeteira nova – disse Bertha.

– Nós só temos uma nova cafeteira de quinze em quinze dias – disse Harry. Desta vez, Face pegou o braço de Bertha; a Srta. Fulton inclinou a cabeça para o lado e seguiu.

Na sala, o fogo havia diminuído para um vermelho bruxuleante como “um ninho de bebês de fênix”, disse Face.

– Não acenda a luz agora. É tão bonito.

E abaixou junto ao fogo outra vez. Ela sempre sentia frio... “Sem seu casaquinho de flanela vermelha”, pensou Bertha.

Naquele momento, a Srta. Fulton “deu o sinal”.

– Você tem um jardim? – disse a voz fria e sonolenta.

Isso foi tão primoroso da parte dela que tudo o que Bertha podia fazer era obedecer. Ela atravessou a sala, puxou as cortinas e abriu as janelas compridas.

– Aí está! – disse, inspirando o ar.

E as duas mulheres ficaram de pé lado a lado olhando a esguia árvore florida. Embora estivesse parada, como a chama de uma vela, parecia alongar-se, esticar-se para cima, tremer no ar puro, ficar cada vez mais e mais alta aos olhos atentos – como se fosse tocar a borda da lua redonda e prateada.

Quanto tempo elas passaram de pé ali? Como se ambas tivessem sido capturadas pelo círculo de luz extraterrena, entendendo perfeitamente uma a outra, criaturas do outro mundo, e imaginando o que fariam com todo esse tesouro extasiante que queimava dentro do peito e caía de seus cabelos e de suas mãos em flores prateadas?

Para sempre – por um momento? E a Srta. Fulton murmurou:­

– Sim. É exatamente isso.

Ou Bertha havia sonhado?

Então a luz foi acesa, Face fez café e Harry disse:

– Minha querida Sra. Knight, não me pergunte pelo meu bebê. Nunca a vejo. Não vou me interessar nem um pouco até que tenha um amante. – E, por um momento, Mug tirou seus olhos da estufa e então colocou o monóculo outra vez, e Eddie Warren bebeu café e largou a xícara com uma expressão angustiada como se tivesse visto e engolido uma aranha.

– O que quero fazer é dar uma chance a esses jovens. Acho que Londres está fervilhando com peças de primeira que ainda não foram escritas. O que quero lhes dizer é: “Aí está o teatro. Sigam.”

– Minha querida, sabe que vou decorar uma sala para Jacob Nathans. Ah, estou tão tentada a fazer um desenho de uma loja de peixe frito, o espaldar das cadeiras no formato de frigideiras e lindas batatas fritas bordadas nas cortinas.

– O problema com nossos jovens escritores é que eles ainda são muito românticos. Não se pode embarcar num navio sem ficar enjoado e precisar de uma bacia. Então, por que eles não têm a coragem de pedir a bacia? Um poema horrível sobre uma garota que era violentada por um mendigo sem nariz no bosquezinho...

A Srta. Fulton afundou na poltrona mais baixa e macia, e Harry passou os cigarros.

Pela maneira como ele ficou de pé diante dela e como balançava a caixa de prata dizendo abruptamente: “Egípcios? Turcos? Da Virgínia? Todos estão misturados”, Bertha percebeu que ela não só o entediava; ele realmente não gostava dela. E pela maneira que a Srta. Fulton disse: “Não, obrigada, não vou fumar”, sentiu o mesmo, e ficou magoada.

“Ah, Harry, não a odeie. Está enganado a respeito dela. Ela é maravilhosa, maravilhosa. Além disso, como pode se sentir de modo tão diferente a respeito de alguém que significa tanto para mim?

Vou tentar lhe dizer o que tem acontecido quando estivermos na cama esta noite. Tudo o que ela e eu temos compartilhado.”

E, com essas últimas palavras, algo estranho e quase horripilante passou pela mente de Bertha. E esse algo cego e sorridente sussurrou: “Essas pessoas vão embora logo. A casa ficará silenciosa,silenciosa. As luzes vão se apagar. E você e ele ficarão sozinhos no quarto escuro – a cama quente...”

Ela se levantou rápido da cadeira e correu ao piano.

– Que pena que ninguém toque! – ela disse. – Que pena que ninguém toque.

Pela primeira vez na vida, Bertha Young desejou o marido.

Ah, ela o amara, é claro, esteve apaixonada de algum modo, mas não daquela maneira. E é claro que, da mesma forma, tinha entendido que ele era diferente. Discutiram isso tantas vezes. A princípio ficou terrivelmente preocupada ao descobrir que era tão fria, mas depois de algum tempo isso pareceu não importar. Eram tão francos um com o outro – tão bons companheiros. Isso era o melhor de ser moderno.

Mas agora – ardentemente! Ardentemente! A palavra lhe doía em seu corpo ardente! Era a isso que aquela sensação de êxtase lhe levava? Mas então...

– Minha querida – disse a Sra. Norman Knight –, sabemos que é uma desfeita. Mas somos vítimas do tempo e do trem. Moramos em Hampstead. Foi tão bom.

– Acompanho vocês até o vestíbulo – disse Bertha. – Adorei a visita. Mas não podem perder o último trem. Isso é tão ruim, não é?

– Um uísque antes de ir, Knight? – convidou Harry.

– Não, obrigado, meu velho.

Bertha apertou ainda mais a mão dele, agradecida por isso.

– Boa noite, adeus – gritou do degrau de cima, sentindo que esse seu eu estava livre deles para sempre.

Quando voltou à sala de visitas, os outros estavam de ­partida.

– ... Então você pode vir no meu táxi parte do trajeto.

– Eu ficaria tão agradecida por não ter de enfrentar outro motorista sozinha depois da minha terrível experiência.

– Você pode pegar um táxi no ponto bem no final da rua. Só precisa andar mais um pouco.

– Que bom. Vou colocar meu casaco.

A Srta. Fulton foi em direção ao vestíbulo e Bertha a seguia quando Harry quase a empurrou ao passar.

– Vou ajudá-la.

Bertha sabia que ele estava arrependido da indelicadeza – ela o deixou passar. Como ele era infantil em alguns aspectos. Tão impulsivo... tão... simples.

E ela e Eddie ficaram perto da lareira.

– Já viu o novo poema de Bilk chamado “Table d’Hôte”? – perguntou Eddie gentilmente. – É maravilhoso. É da última Antologia. Tem um exemplar? Eu adoraria lhe mostrar. Começa com um verso incrivelmente bonito: “Por que sempre deve ser sopa de tomate?”

– Sim, eu conheço – disse Bertha.

E ela foi silenciosamente até a mesa em frente à porta da sala e Eddie deslizou silenciosamente atrás dela. Ela pegou o livrinho e lhe deu; não emitiram ruído algum.

Enquanto ele consultava o livro, ela virou a cabeça para o vestíbulo. E ela viu... Harry com o casaco da Srta. Fulton nos braços e a Srta. Fulton com as costas voltadas para ele e a cabeça inclinada.

Ele jogou o casaco de lado, colocou as mãos nos ombros dela e a puxou violentamente contra si. Os lábios dele disseram “Eu te adoro”, e a Srta. Fulton passou os dedos da cor do luar no rosto dele e deu o seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremeram; tinha os lábios crispados em um horrendo sorriso quando sussurrou: “Amanhã”, e com as pálpebras a Srta. Fulton disse: “Sim.”

– Aqui está – disse Eddie. – “Por que sempre tem de ser sopa de tomate?” É tão verdadeiro, não acha? Sopa de tomate é tão pavorosamente eterna.

– Se preferir – disse a voz de Harry do vestíbulo, muito, muito alta, – posso telefonar e pedir um táxi aqui na porta.

– Ah, não. Não é preciso – disse a Srta. Fulton, que se aproximou de Bertha e lhe estendeu os dedos finos.

– Adeus. Muito obrigada.

– Adeus – disse Bertha.

A Srta. Fulton segurou a mão dela por um instante a mais.

– Sua pereira é linda! – murmurou.

E então foi embora, com Eddie a seguindo, como o gato negro seguindo o gato cinzento.

– Vou fechar a loja – disse Harry, extravagantemente calmo e contido.

“Sua pereira é linda – linda – linda!”

Bertha simplesmente correu até as amplas janelas.

– Ah, o que vai acontecer agora? – gritou.

Mas a pereira estava linda, repleta de flores e imóvel como sempre.

(Tradução de Mônica Maia)


Katherine Mansfield foi uma escritora de contos que nasceu na Nova Zelândia e morreu muito jovem, de tuberculose, em 1923. Seus contos são muito admirados por grandes escritores: Virginia Woolf deixou registrado em seu diário que tinha ciúmes de Katherine Mansfield, por causa do estilo da escrita dela. As duas chegaram a se conhecer, frequentaram a casa uma da outra, trocaram cartas e escreveram em revistas da época sobre seus respectivos livros (com comentários inflamados que acabou por abalar a amizade delas); Clarice Lispector pegou um livro dela da prateleira de uma biblioteca e não conseguiu parar de ler, leu todo o conto em pé, admirada; Vinícius de Moraes escreveu um soneto para ela. Enfim, Katherine Mansfield viveu pouco, mas deixou um belo registro sobre a vida, as sutilezas do cotidiano reveladas em situações surpreendentes.

Oficina de conto / agende-se

Será no dia 23/09, das 09:00 às 17:00h, Harmonia Lira - Joinville

OFICINA DE CONTOS

PROGRAMA

OBJETIVO: Estudar e analisar o conto mundial e o conto brasileiro; desvendar a estrutura e a linguagem do conto; incentivar novos contistas; aprimorar a arte do conto.

PÚBLICO: professores, escritores, estudantes.

CONTEÚDO:
- AS ORIGENS DO CONTO
- O CONTO MUNDIAL
- O CONTO BRASILEIRO
- O CONTO LATINO AMERICANO
- CONTO, NOVELA E ROMANCE
- A ESTRUTURA DO CONTO
- A LINGUAGEM DO CONTO
- MINICONTOS
- DICAS DE COMO ESCREVER O CONTO


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PALESTRANTE: DAVID GONÇALVES - escritor, professor e mestre em Literatura Brasileira, premiado nacionalmente, com mais de 20 livros publicados, entre eles: Geração viva, contos, Bola de fogo, contos, O sol dos trópicos, romance, Sangue verde, romance, Pés-vermelhos, contos, Entrem e sejam bem-vindos, contos.

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Desabafo

Rodrigo Janot falou em organização criminosa: Lula, Dilma, Palocci, Mantega, Gleisi, Edinho, Paulo Bernardo, Vaccari. Quem era mesmo o chefe da quadrilha? E os demais quadrilheiros? Que a Nação não permita que se safem! Vamos lá! Acorda, povo! Está na hora de deixar de lado qualquer ideologia partidária! O que se tem visto, não dá pra negar e acreditar em inocência! Inocentes são os que acreditam nessa corja! Pronto! Falei! Causa-me incredulidade ver gente defendendo essa gente! Hora de defendermos a nós mesmos!

Odenilde Nogueira Martins - 06/09/2017

Roda viva - crônica / Donald Malschitzky

Pelos cantos, às vezes entre temerosos sussurros, falcatruas, roubos, desaparecimentos, fortunas, subornos, códigos de silêncio são motivo de longas histórias, irreais aos olhos e ouvidos de ouvintes com dificuldade de mensurar o que significa a palavra “bilhões”, por exemplo.

Roupas feitas sob encomenda, brilhosos sapatos, cabelos bem aparados, viagens deslumbrantes, hotéis de luxo impensável, jantares de sonho, companhias dispostas e inacessíveis sequer aos sonhos dos cidadãos que respiram ares normais, esses pobres ares que estão aí, à nossa disposição. Cidadãos lembrados apenas como massa de manobra, consumidores e provedores. Bajulados pelos poderosos, às vezes, pois é preciso que existam aqueles que consomem e sustentam.

Amigos viram inimigos e inimigos viram amigos do peito, a depender das conveniências de momento ou de futuro, pois às vezes não vale a pena digladiar-se ou eliminar quem, no fundo, pode ser bem útil para seus propósitos. De qualquer forma, melhor tomar cuidado nesse ambiente pantanoso, repleto de traições e delações, pois quem já mudou de lado uma vez, pode fazê-lo novamente.

Estando do mesmo lado ou lados contrários, a forma de agir é sempre similar: aproveitam-se de comoções e desgraças, de necessidades não atendidas de quem se contenta com quase nada, e fazem fortunas incalculáveis, não importa quanto custam em miséria, doenças, vidas. Nada, para eles, merece respeito, e como instituições e empreendimentos foram construídos são apenas detalhes que não devem ser considerados.

São conhecidos e reconhecidos, mas sempre há multidões que os bajulam, admiram, riem de suas piadas sem graça, criam mitos, falam de suas fortunas com admiração e entusiasmo. Nunca falta quem os trate como heróis e não admite o que verdadeiramente são.

Manipulam autoridades, submetem juízes, compram testemunhas, saem ilesos e, quando condenados, culpam quem os condenou. Raramente são realmente presos e, quando isso acontece, muitas vezes, usufruem de mordomias impensadas. Da prisão, continuam a mandar e desmandar em suas redes criminosas.

Julgam-se intocáveis e onipotentes, e parece que o são mesmo.

Este é um resumo da trajetória do crime organizado na história da humanidade, mas não tem como evitar uma sensação bem brasileira e atual de “déjà vu”.

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O Muro de Berlim - Urda Alice Klueger

Em 1961, quando construíram o Muro de Berlim, eu tinha nove anos, e mal-e-mal sabia que Berlim ficava na Alemanha. Essas coisas de Alemanha dividida, de pós-guerra, de bloco capitalista e socialista, eram todas coisas das quais eu ainda não tinha consciência. Sabia, porém, como não podia deixar de ser, que a Alemanha havia sofrido muito durante a guerra, pois ouvia as inúmeras histórias das pessoas de Blumenau, que mandavam pacotes com comida e roupa para seus parentes do castigado país, e espantava-me ao saber que as roupas enviadas tinham que ser lavadas uma vez, para não parecerem novas, e outros detalhes assim, coisas que uma criança do pós-guerra, em Blumenau, sempre acabava ouvindo.

Havia, até, uma piada que eu achava engraçada e tétrica, que circulava nessa época, sobre a história de se mandar pacotes com comida para a Alemanha. Uma família escreveu para seus parentes de lá informando que seguia pelo correio (via navio) uma caixa com pó para pudim. Acontece que a avó da família, que vivia aqui em Blumenau, morreu. Ela sempre tinha pedido que, quando morresse, fosse cremada, e suas cinzas enviadas à Alemanha. A família cumpriu seu desejo: cremou a avó, colocou suas cinzas numa caixa, e enviou a mesma, via aérea, para a Alemanha. Seguiu uma carta, também, explicando que estariam chegando as cinzas da avó, só que tal carta se atrasou. Quando chegou a caixa com as cinzas, os parentes de lá acharam que era a caixa com o pó para pudim, e não deu outra: fizeram pudim com as cinzas da avó, comeram a avó. Piada sem graça que circulava em Blumenau na década de sessenta.

Pois bem, a Alemanha, para mim, ainda era aquela do pessoal que fez pudim com a avó, quando, um dia, na igreja, o padre falou sobre uma coisa estarrecedora: uma cidade fora brutalmente dividida por um muro que separara pais de filhos, irmãos de irmãos, amigos de amigos. Pintou as coisas com as piores cores (e as cores eram feias mesmo), e convidou o pessoal da missa para ir ver uma exposição fotográfica sobre o assunto, que passava pela cidade, e que estava exposta no nosso Teatro Carlos Gomes.

Um dia ou dois depois, aquilo ainda estava na minha cabeça, e avisei minha mãe que ia ver a exposição. Creio, hoje, que aquela foi a primeira vez que entrei no nosso imponente Teatro Carlos Gomes, que parecia muito mais imponente ainda por eu só ter nove anos.

Gente, eu não esqueci daquilo até hoje! Sem quem me orientasse na exposição (fora sozinha), devo ter passado horas e horas olhando aquelas fotos e lendo as legendas. Aquilo era muito mais chocante do que o padre falara: as imagens tinham uma força como eu não sabia, uma força que as décadas seguintes aproveitariam com força nos meios de comunicação, mas que, naqueles tempos de rádio, a gente ainda não conhecia.

Cruamente cruel, lá estava o muro tapando as janelas dos prédios, deixando os moradores sem luz. Sem disfarces, lá estavam as guaritas com os soldados armados, que vigiavam a faixa de cem metros, cheia de obstáculos, onde não se podia passar. Lá estavam os rolos de arame farpado, as armadilhas, o terreno minado. E, o que era pior para mim, lá estava o muro interrompendo as ruas – e se interrompessem a minha rua, e eu não pudesse mais ir para a escola, ou na casa da tia Fanny? A agressão daquelas fotos entrou na minha pequena alma de nove anos com toda a força: acho que foi a primeira vez que dei de cara, mesmo, com a crueldade. O padre já tinha falado que muitas pessoas estavam morrendo metralhadas, por lá, na tentativa de fugir para Berlim Ocidental, e minha imaginação fértil via as pessoas correndo sob o foco dos holofotes e sendo ceifadas por armas poderosas. O horror daquilo ficou indelevelmente marcado na minha vida. Creio que, quando saí de lá, senti alívio: Berlim era muito longe, numa remota Alemanha, país onde se comiam avós pensando-se que eram pudins – aquilo nunca aconteceria na minha pequena realidade de Blumenau.

Quase trinta anos depois, em 1989, quando o muro caiu, eu senti um alívio imenso. A minha angústia de 1961 vivera comigo todos aqueles anos. E eu exultei como os jovens alemães de 1989 exultaram, e, meses depois, vi um pedacinho de muro que um rapaz de Blumenau havia recebido como souvenir: ingênuo e inofensivo, o pedacinho de muro estava numa caixinha de jóias, apoiado sobre algodão. Não parecia ter aquele horror de 1961, mas eu sabia que tinha.

Urda Alice Klueger - Blumenau, 28 de junho de 1997.

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A garra de um Pé-Vermelho - cordel / Afonso de Sousa Cavalcanti

As energias de um grande escritor
Foram canalizadas com bom frescor,
Na exata criação de uma bela saga. 
Ele organizou louvores à terra vermelha
E buscou em sua alma aquela centelha
Que o Criador lhe deu nas horas vagas.

O sonho de Santônio de ser proprietário,
Carregou sua família a um novo cenário 
Para ela experimentar um novo labor.
Ao lado de Isabel e abraçado às crianças
Aquele pai olha os céus e vê esperanças,
Não importando com o infortúnio e a dor. 

A Quadrínculo já estava no mapa traçada
E as distâncias se venciam por estradas
Que ziguezagueavam em todas as direções. 
Surgia ali um cenário social, religioso e político,
Não podendo contar com um povo crítico,
Mas sim uma massa rendida por seduções.

A trama da saga da grande obra Pés Vermelhos
É de fato um modelo, um enorme espelho
Que o escritor David Gonçalves ao povo entrega.
No tecido das ideias, facilmente se vê o oprimido,
Pois o escritor argumenta e não quer alarido
Acerca da defesa do pobre que o rico esfrega.

O grande romance não poupa jagunços e valentões,
Não esconde a luxúria, a vaidade, o sexo e as paixões,
Ele vai fundo: filosofa, faz críticas ao certo e ao errado.
O analista da saga viaja no tempo e faz justiça social,
Enfrenta os poderosos e apresenta um trato igual,
Usa de sua sensibilidade e pelo diálogo é acompanhado.

Cafeicultores, trabalhadores, religiosos, comerciantes,
Todos os que formam a Quadrínculo são significantes,
Pois sem eles, sem as ações deles, não haveria a memória.
Gabriel não teria aparecido e se entusiasmado a escrever,
Bons e maus não viriam à próspera Quadrínculo para ser
Os personagens pés vermelhos apresentados na história.

E para findar e deixar o registro desse pretenso cordel,
Chamo os personagens históricos Santônio e Isabel
Que ajudaram na colonização do Estado do Paraná.
Então foi preciso dar nome a todos os personagens
Da obra Pés Vermelhos, uma riqueza de mensagens
Que o escritor renomado lapidou e hoje se nos dá.

Afonso de Sousa Cavalcanti - Mandaguari, 2 de setembro de 2017.