Poemas / Onévio Antonio Zabot

ADEUS ÀS BREVES GOTEIRAS

Ao ver a velha escola tombada pelo tempo
Senti uma dor infinita no coração.
Ali parada acenava para o mundo...

Socorro...! 

Desolada - pedia socorro à pequena escola.
Todos os alunos que por ali cruzaram subitamente
Reencontraram-se... Silêncio profundo.

Cumprimentam-se um a um como se estivessem
Assistindo a primeira aula... Manhãs de outrora. 
Estendem as mãos, rezam uma prece, doce glamour! 
Cena inesquecível, pássaros retornam aos ninhos.
Saudade danada que não acaba.

Quanta saudade, ó Deus!
Daqueles momentos fagueiros...
Quanta saudade...!
Rever companheiros, recreio de sempre,
Embora ali nunca tivesse estudado.

Não sei por que aquela
Era também minha escola.
O mesmo professor,
As mesmas carteiras d´outrora .

...Ali estive como extensionista,
Bem mais tarde que as andorinhas.
Que o diga Carlos Iarochinski
E seus atrevidos bem te vis.
O mundo é assim, nada podemos fazer...
Despistar o próprio destino.

Ao ver a escolinha abandonada...
Portas e janelas puídas - telhas tombadas no chão.
Beijo a velha porta carcomida.
Por onde tantos sonhos adentraram.

E lá estava o quadro negro:
Letras graúdas traçadas a giz:
Adeus às breves goteiras.

(Onévio Antonio Zabot)
Homenagem a Escola Isolada da Estrada Santa Catarina onde fiz minha primeira reunião como extensionista rural em Joinville (1979), hoje abandonada (2015), fruto da nucleação do ensino.


INDÓCEIS CARAVANAS

Sigam-me,
Disse o profeta. 

E todos o seguiram.

Primeiro as aves,
Depois as montanhas.

Os leões 
E suas mansas patas.

O vento,
E as brancas baleias semoventes.

Caminhar.
Luzes de caminhar.

Bois 
Mugiram.

Mansos bois:
Áspera memória.

Gramados ergueram-se:
Folhas novas.

Algas.
Incontáveis algas.

Raízes,
E o vento de sempre.

E todos seguiram:
Indóceis caravanas.

Seguiram de seguir,
Como cabras seguem.

Como bodes seguem:

Faca amolada
Afiando lua.

(Onévio, 2012)


AMIGO DAS NOITES VAGAS 

Pobre cão, tiveste a prisão como destino. 
Jamais sentiste o gosto da liberdade, 
Nem o cheiro das campinas em flor. 
E morreste, abandonado, numa noite de calor. 

Quantas noites intrigado olhaste a lua,
Quantas noites namoraste as estrelas.
E de tanto vê-las sonhaste com elas.
Mas agora estas com elas, e pode tê-las.

Aonde vagas, pelos campos do Senhor,
Amigos te recebem de abraços abertos.
E ladras feliz, velho cão companheiro!
Um grito de liberdade ecoa decerto.

Namorador de estrelas, a benção, enfim:
A boa brisa dos campos verdejantes...
E corres, corres pelas estradas do céu...
Nada lhe é estranho, tudo é fascinante.

Curta, curta o céu Nico velho de guerra!
Mas não esqueça aqui debaixo, da gente.
Quando puder, dê uma escapada, apareça.
Ficaremos felizes, em vê-lo novamente.

Traga notícias de lá... Mandaremos de cá.
Se foste amigo, mais ainda agora serás.
Erguer pontes no céu - que bela missão!
Unindo gente daqui com a gente de lá.

Um abraço aos amigos. Sentimos tua falta,
Mas vamos em frente, cheios de boa fé.
E um consolo que nos conforta somente:
Um dia estaremos juntos - se Deus quiser.
(Onévio )

Homenagem a Nico, bravo Nico (2010)


ÁRVORES AMIGAS

Onde dormem meus passarinhos
Que com que alegria fizeram seus ninhos, 
Mas que a esta hora não mais estão por aqui. 

Se foram acaso às calendas,
Assim que a noite cobriu o mundo
E sopram os ventos do frio inverno.

A esta hora, Santo Deus, que frio!
É o inverno com seu manto encarnado
A cobrir os campos gelados.

Mas esta hora onde repousam meus passarinhos,
Ressabiados passarinhos que tanto quero bem!
Quem por eles... Alguém acaso os salvará!

Há árvores aqui por perto
E há árvores ao longe.
Há árvores por todo o lado, árvores amigas.

É lá que dormem os passarinhos,
Domem meus passarinhos por lá...
Nas copadas verdes embalados a sonhar.

Respondam-me, ó fadas da mãe-natureza, 
Por favor, respondam-me,
Ó filhas prediletas do anoitecer.

Onde, onde...
Onde dormem meus passarinhos
Nestas frágeis horas.. Onde?!

Enquanto houver árvores amigas,
Responderam as fadas a soluçar...
Pássaros, pássaros amigos sempre haverá.

(Onévio)
Joinville, 17 de Julho, 2017


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Onévio Antonio Zabot

TEIMAS DE ANÉSIO - Onévio, causos dos fundões / Onévio Antonio Zabot

Apequenado de tamanho - pouco mais de metro e meio -, nunca de teima. Só podia ser Anésio: tiguerado feito joá amarguento, espinhoso e reticente. Sobressaia-lhe a feição soturna: um par de olhos miúdos e enfiados na testa, e as pernas arqueadas de domar burro bravo. Rude e indomável, toda sua formação vinha da escola do mundo, do mato, já que pouco freqüentará a cidade. Pedra podia ser pedra, desde que estivesse de acordo. Do contrário, podia ser pau, o diabo. Mudar de idéia!... Nunca. Não era doido, nem vassoura varrida.
Prá azedar o homem chegando à lua (1969, julho, dia 20, coisa de 23:56:31). Anésio empombou-se, desandando de vez. Naquela tarde, como de costume oitavado no balcão do boteco interiorano, indignado e incrédulo, confabulava:
– Pousam em algum cafezal geado, e dizem... 
– É a lua. 
– Diabo! É o fim... 
– Rafaelão, ao lado - cabisbaixo - repuxando a aba do chapéu, assente: 
- É!... Em quem confiar? Mexer com Deus é o que querem.
Afrontá-lo, afirmar o contrário, quem ousaria? Matias Vilaverde, o mais valente, mesmo com três culhões , escafedeu-se.
Anésio – figura intrépida – de birra invocava por qualquer coisa. De índole imprevisível, voltava-e-meia, depois de alguma cachaça, metia-se em encrenca. Qualidade única, se era: resolvia as diferenças no braço. Nada de arma branca, de bala. 
Implacável, meias-botas de couro crú, barreadas e ressequidas, adentrava diariamente à vendinha do interior. Coisa de final de tarde, 17h00 horas. 
- Uma cachaça, seu Luiz!... Copo à mão, depois de oferecer aos presentes, cortesia de boteco, de uma talagada, entornava. De bate-pronto, disparava uma cuspida a capricho na alquebrada parede. O torpedo descia escorregando entre sacos da farinha de mandioca, adernando-se na velha prancharia de peroba. 
Contrariado, naquela tarde, mastigava freios. Eis que surge Américo, sujeito franzino, uma besta humana. Fofocas mal resolvida atravessaram o caminho. E ambos deram-se à forra.
No gramado, do lado de fora da vendinha, o pau cantou. Socos, pontapés, rasteiras. Tudo a rodo. O velho granjeara fama de ser bom de rasteira, de roda-botas. E não deu outra, a surra foi das boas. De parte a aparte, ameaças de morte e promessas de tiros. Calaram-se, todos se calaram na velha vendinha interiorana. Ainda bem. Ninguém viu, muito menos ouviu nada. Roupas esfarrapas, chamuscadas de grama, esverdeadas. E só. 
Todos sabendo de tudo. Vazou. Anésio, pai de família, andava de caso com uma cunhada. O comentário partiu de Dona Maria, a parteira. Dona Ana, irmãs de Delcides, mulher de Anésio, acabará de dar a luz a dois gêmeos. Veio abaixo o mundo, ficou pequeno o lugarejo. Cochicho espichado, longo, de azucrinar. Reboliço adoidado. Rezadeiras, resignadas, benziam-se. O capeta anda solto, comentavam.
E pra completar... Mais confusão no povoado (caralho que o parta!): Dilma, mulher de Zé Baiano deu em flertar com Zé Pernambuco, seu melhor amigo de pescarias. Pegos em flagrante, o lugarejo ficou pequeno para tanta zoeira. Nada demais, se tudo não estourasse na venda de seu Luiz, domingo à tarde. 
Baiano que jogava bocha, diante da chegada de Pernambuco, não titubeou, ergueu a camisa, alçou a velha a garrucha e tascou fogo. Coisa de dois tiros: um de cada cano. Um corre-corre dos diabos. Felizmente, entre mortes e feridos todos se salvaram. Baiano, andava mal de pontaria.
Anésio, encurralado por Delcides, a infeliz esposa, passou a dormir na tuia de café, encima de uma velha lona, arreiada de fazer dó. 
E dias desses, meteu susto na vizinhança. Coisa de meia noite, todos ouviram estampidos, disparos de arma de fogo vindo do rancho ao lado. O barulho ecoou surdo pelos carreadores, captado por meio-mundo. 
- Deve estar morto, esse filho duma puta, cismou Delcides.
Todos correram ao mesmo tempo. No escuro, o cheiro de pólvora era insuportável. Pelo jeito detonara os dois canos de uma única vez. Seria contra o peito, contra a cabeça. Onde estariam os miolos? Certamente dependurados no teto. Que nada!
Veio a baixo o mundo: 
- Avante, sosseguem, esbravejou furioso o vivente, afundado no rancho! 
- Levem o rato com vocês!... E lançou o estranho imbróglio sobre Neusa, a filha 
mais velha. 
Assim era Anésio: imprevisível. Dera cabo de um rato a tirambaços, tirambaços de-acaba-mundo, abrindo o teto do velho rancho. 
Entreolharam-se, todos se entreolharam boquiabertos, enorme furo no teto; taboinhas voaram. Concertá-las à noite... pouco provável. Chovia. E a chuva tudo molhava. 
E Anésio deu de recarregar a chumbeira de cano duplo. Socava a vareta cano adentro e socava: pólvora-e-bucha, chumbo-e-bucha, às camadas. Em seguida - batendo na concha da mão -, ajustou a espoleta. Incontinenti e negaceando, armou o gatilho. Olhos esbugalhados de caçador de nuvens. Apavorados, todos deram o fora. 
Naquela noite os disparos, intermitentes, cadenciavam-se de quando em quando, rebombando pingos de chuva. 
Anésio era Anésio: desnorteado atirava à toa.

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Onévio, causos dos fundões.

No Tempo da Bolacha Maria - crônica / Urda Alice Klueger

Eu cresci no tempo antigo, antes da televisão, da geladeira, dos supermercados e das guloseimas sofisticadas de hoje. Na minha infância, comia-se bem, mas a variedade era pouca. Uma mesa de café farta era uma mesa que tinha pão (de casa ou de padeiro – pão de padeiro não era comprado na padaria: o padeiro o entregava nas casas, de manhã cedo, com uma carrocinha puxada a cavalo), queijo branco e queijo amarelo, linguiça, manteiga (ainda não existia a margarina por aqui), nata fresca, mel de abelha e os muitos mussis que as mães da gente faziam com as frutas do pomar. A gente variava deste jeito: hoje comia pão com mel e nata; amanhã, pão com manteiga e mussi de banana. Em dias especiais, comprava-se um pouco de salame, considerado iguaria, comido com parcimônia devido ao preço. Se a mãe da gente fosse prendada, que era o caso da minha, fazia uma porção de docinhos de polvilho no forno à lenha, e gostosos bolos nos dias em que fazia pão.

Para comprar na venda (para os jovens: venda é o antepassado de supermercado), havia balas azedinhas e balas de coco-queimado, mata-fomes (uma bolacha grosseira,feita por padeiro), e a bolacha Maria. Não pensem, porém, que se chegava na venda e se comprava um ou dois pacotes de bolacha Maria, como se faz hoje – não, a gente pedia 200 gramas de bolacha Maria, e o dono da venda abria uma lata enorme cheia de bolachas, e pesava os 200 gramas num saquinho de papel pardo, que a gente levava para casa com muito orgulho, quiçá se exibindo para as outras crianças que não tinham comprado bolacha Maria. Vale lembrar que a bolacha Maria daquela época era igualzinha à que existe hoje.

As balas e a bolacha Maria eram o máximo de guloseima que existia na minha infância, nos dias normais. Em dias especiais, que eram o Natal e a Páscoa, ganhava-se chocolates. Chocolate era uma coisa que só era vista nessas duas ocasiões do ano. Minha tia Frieda, quando vinha do Rio de Janeiro, uma vez por ano, trazia umas balas de coco diferentes, que eram a nossa alegria.

Na época em que entrei na escola, lá por 1960, começaram a existir outras guloseimas: o sorvete-seco, a maria-mole, o puxa-puxa. Minhas professoras, todas freiras oriundas de Minas Gerais, um dia fizeram e venderam no colégio legítimo doce-de-leite mineiro. Que sabor maravilhoso que aquilo tinha! Por anos, talvez, sonhei em comer aquilo de novo – ainda tenho aquele gosto de doce-de-leite na boca!

Havia em Blumenau, também, as confeitarias: Socher, Tönjes, lugares sofisticados onde às vezes o meu pai me levava para comer um doce diferente. E havia as cocadas e os sonhos que se compravam quando se viajava de trem, mas tudo isso eram exceções: o dia-a-dia só nos apresentava as pobres balas das vendas, e a bolacha Maria. Balas mais sofisticadas só apareceram na minha adolescência (Chuva-de-ouro, Chuva-de-prata, bala de cevada), e eu estava bem grandinha quando surgiu o chiclete bola Ping-Pong, sabor hortelã. 

De repente, lá por volta de 1970, houve um boom nas guloseimas. Em primeiro lugar, apareceram os supermercados com variedades incríveis de bolachas recheadas, iogurtes, coisas divinamente saborosas, que não conhecíamos. Os frios se multiplicaram, e lembro da primeira vez que comi presunto cozido – que coisa deliciosa! Era toda uma nova gama de sabores que vinha encantar a gente, e foi também ali por volta de 1970 que surgiu em Blumenau uma novidade fantástica: os carrinhos de cheese-salada! Com certeza, nas últimas décadas da história da cidade, não havia acontecido nada parecido com aquele estrangeirismo que vinha, de repente, modificar profundamente os nossos gostos alimentares. Com os cheese-salada veio a descoberta da mostarda amarela, do catchup, da maionese sem ser com batatas, a valorização do milho verde e da ervilha, a descoberta do gosto picante do molho de vinagrete. A mistura de todos aqueles sabores novos num só sanduíche era uma coisa paradisíaca, e um programa importante da minha juventude era ir comer cheese-salada, não importava se fosse cinco horas da ‘madruga’ – não se podia sair de uma festa e ir dormir sem um abençoado cheese-salada!

O tempo passou, e todos os novos sabores que surgiram faz quase três décadas se incorporaram normalmente ao nosso dia a dia, e creio que já não saberíamos viver sem eles. Mas, às vezes, me bate uma saudadezinha da minha infância, da simplicidade das guloseimas de então, e daí passo no supermercado e compro... um pacote de bolacha Maria. Continua sendo muito gostoso.

Blumenau, 11 de agosto de 1996.

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Foto de Marlete Cardoso
Urda Alice Klueger - Escritora, historiadora e doutora em Geografia

Agenda cultural - lançamento

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Pés-vermelhos - romance - David Gonçalves



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David Gonçalves


Relato vivo, múltiplo e caótico da colonização das terras roxas do Norte do Paraná. Migrantes e imigrantes se misturam numa saga pujante. O laboratório étnico em ação, temperado com paixões desenfreadas, cobiça, crendices, pactos macabros, surrealismo, mas impregnado de calor humano.

De 1940 a 1980, da selva à civilização, as terras roxas conhecem o progresso veloz e imperativo. O El dourado do café. Pequenas cidades se tornam metrópoles. O dinheiro fala e manda calar a boca. O ouro verde. Os pés-vermelhos estavam por cima. Queriam mais. Palmo de terra valia ouro. Especulava-se. Matava-se. Multiplicava-se.

Então, a geada negra chegou, dizimando os cafezais. A falência das elites. Deu-se o início ao êxodo rural. Os boias-frias nos caminhões de lona, empoeirados, sem esperança. As cidades médias e grandes viram as periferias incharem.

Neste mundo caótico e comovente, as personagens se movem com suas paixões e voracidade, espelho vivo da América Latina.

Pés-vermelhos - romance / David Gonçalves - Joinville/SC

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O novo romance de David Gonçalves, uma saga pujante, épica, como o "Sangue verde "




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Pensamento + Horizontal

Pensamento

Meu pensamento é rio.
Ora de águas claras,
Ora de águas turvas,
Ora remanso,
Sossego, descanso.
Ora caudaloso,
Inquieto, buliçoso.

Meu pensamento é rio.
Ora atira-se nas barrancas,
Ruge, grita e assusta,
Ora lambe suas margens,
Sussurra, beija e acalanta.

Meu pensamento é rio.
Ora passeia raso,
Enfeitado de seixos coloridos,
Ora fecha-se profundo,
 De sombras mostra-se tingido.

Meu pensamento é rio.
Ora desce tranquilo,
Ora carrega flores,
Ora corre furioso,
Ora impiedoso destruidor
dos sonhos que fantasio.

Meu pensamento é rio.
Ora águas mornas,
Ora águas gélidas,
Ora claro,
Ora escuro.

Como entender este rio?

Odenilde Nogueira Martins - 01/10/2015



Horizontal

Ah! Esta vida na horizontal,
Tão sem charme, tão tediosa, tão igual!
Na inércia do tempo que corre,
Melhor ser folha solta,
E o vento a chibata bondosa
Que de leve chega e açoita,
Faz rolar por entre as pedras,
Sobre o chão úmido,
Por terras tantas!
Folha se faz,
Encharcada, pela chuva perfumosa.

No correr das horas modorrentas,
Levada como um raminho,
Sentindo o fim que se aproxima,
E antes que limo se crie,
Possa ter, finalmente!
O repouso... Em ninho de passarinho.

Odenilde Nogueira Martins


Volátil

Volátil

Desprezo a gélida ação pragmática
Que tira o gosto do pulso acelerado,
Enfadonha...
Sistemática.

Encanta-me o volátil,
Maravilhosamente instável. Que voa!
Nascida de um impulso,
A palavra imperfeita e bêbada,
Vomitada em versos convulsos.

Enfada-me a palavra unívoca e fria
Das verdades absurdamente dogmáticas,
Trazida em certeza inequívoca
Ostensiva, enfadonha e vazia.

Seduz-me a palavra enigmática,
Que maior do que eu,
Mostra-me toda,
Mostra-me nada!
Em disfarces e fingimentos
Permite alegorias mil,

Dos múltiplos e secretos sentimentos.

Odenilde Nogueira Martins

Retirante

Retirante

Retirante de mim,
Submersa em profundezas
E labirintos de limo escorregadio,
Garimpando memórias na desordem do caos,
De pecados tantos! Já extintos!

Afogada em enxurradas de paixões,
 Angústias,
 Tormentos,
Alegrias...
 Delicias em chuviscos.

Noites frias,
Noites escuras,
Noites de lua,
      Airosas madrugadas.         

Retirante do mundo,
Trajetórias feitas de alarido,
Confusos rabiscos,
Daquilo que foi e podia ter sido.
No cálice, de puro cristal, bebida doce,
Na boca, o gosto do fel bebido.


Odenilde Nogueira Martins – 01/11/2015

Simplicidade

Simplicidade

Singela é a branca margarida,
em longo pedúnculo unitária
que encimada em receptáculo cônico
ao sabor dos ventos dança solitária.

Tem a leveza da simplicidade
De rebuscamento inútil, se faz toda nua
Como minha palavra sem vaidade,

tão simples, tão bela... Tão minha e tão tua.

Odenilde Nogueira Martins

Agenda cultural

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Retrato - conto / Odenilde Nogueira Martins

Contava nove anos. Menino travesso que só! Não havia árvore alta demais para ele na busca de uma fruta madura. Nenhum quintal era muito pequeno ou muito grande. Não importava o tamanho, sempre havia algo para se ver, para se descobrir ou um mistério para se inventar.

Perdia-se no tempo, contemplando o ir e vir das fileiras de formigas laboriosas, que assim como seu pai, tratavam de estocar comida pensando em não deixar faltar mantimentos. Discreto, trepado nas árvores, observava a engenhosidade dos ninhos dos pássaros. Observava todos: com ovos, com filhotes e até os vazios, sabia pelo tipo de ninho qual pássaro pusera, ali, seus ovos.

Admirava-se toda vez que se deparava com uma teia brilhante, bordada de insetos desprecavidos. Penalizado, concluía: “A aranha precisa viver”. 

Certa vez, presenciara uma cobra devorando um sapo. Assustou-se! Penalizado, quis interferir e livrar o pobre daquela agonia, mas conteve-se, a cobra também precisa alimentar-se. “Assim é a vida.” Em sua casa, animais eram mortos para alimentá-los.

Em todas as suas incursões, Trovão o acompanhava. Tinham a mesma idade, nasceram com apenas uma semana de diferença, contara-lhe a mãe. E, por vezes, era o amigo que o alertava de algum perigo que não percebera.

– Poxa, Trovão! Se não fosse você, não sei o que teria acontecido. Acho que te devo a minha vida.

Quantas vezes Trovão ouvira aquilo... Tinha perdido a conta. Mesmo por que, não tinha memória muito boa para números.

Antes mesmo de o menino aparecer na porta da cozinha, Trovão saía debaixo da varanda, bastava ouvir a voz do amigo no interior da casa. Assim que o travesso pisava o chão do terreiro, o companheiro começava a saltitar, era hora do café da manhã. Jamais se esquecera de alimentá-lo antes de saírem.

Em poucos instantes, estavam ambos prontos para iniciar o dia. Chegando ao destino, Trovão esperava, pacientemente, do lado de fora. Aprendera que, ali, não podia entrar. Distraía-se com o vaivém dos carros e das pessoas. Alguns, acostumados a sua presença, faziam-lhe agrado, dando-lhe algo para comer e coçando-lhe a cabeça.

– Ah, Trovão! Você é mesmo muito esperto! Nem chegando de mansinho, tentando me esconder, eu consigo te enganar!

Depois de uma prosa e de festinhas, partiam os dois amigos. Aventuras os aguardavam e já começavam na saída da escola.

Malaquias não gostava dos dois amigos e não perdia a chance de demonstrar.

– Lá vem confusão, amigão.

– Esse teu sarnento é tão feio quanto você – dizia sempre que os encontrava, chutando o cão e dando um safanão em seu dono.

– Ele vale por mais de mil de você, seu piolhento! E ele não fede a mijo!

E lá vinham mais chutes, safanões e tapas pela cabeça. Trovão arreganhava os dentes e ensaiava uma investida contra o agressor, mas era contido pelo dono que sabia das consequências se alguém fosse mordido.

– Quieto, Trovão! Não suje os teus dentes de mijo, nem se arrisque a pegar piolho.

E lá se iam os dois estrada afora, já esquecidos do perrengue, olhos e ouvidos atentos, parando, vez por outra, para observar algum pássaro, preá, ou uma borboleta colorida. Certa vez, arrumou confusão com um enxame de abelhas quando resolveu bisbilhotar à de procura  mel. 

Naquele dia, Trovão disparara latindo atrás de alguma coisa que Kiko não percebera, de algum tatu talvez.

– Espera, Trovão! Eu não consigo correr tão rápido!Trovão, me espera! 

O cão seguiu correndo e sumiu de vista, rumo a um barranco ao lado da estrada empoeirada.

– Trovão, cadê você! 

Nem sinal do cão. Desceu barranco abaixo e sumiu por entre as árvores.

– Não vou descer aí! Volte já.

Esperou, esperou e nada. O amigo devia ter ido mesmo atrás de algum tatu ou de algum preá. Não que matasse qualquer bichinho, só se divertia assustando-os.

– Você sabe o caminho pra voltar! – disse aborrecido, cansado de esperar que o companheiro voltasse, ameaçando ir-se sem ele.

Quando se levantou para tomar o caminho de casa, ouviu os ganidos de Trovão. Desceu barranco abaixo rolando, o amigo podia estar em perigo. Sem nem sentir os arranhões que a descida lhe causara, empreendeu uma corrida por entre as árvores. Depois de procurar por alguns instantes, ouviu um riso abafado vindo detrás de uma árvore mais distante. Correu em direção do som. Lá estava Trovão, pendurado pelo pescoço em um galho de uma árvore.

– Teu sarnento já era!

Caiu de joelhos, incrédulo, enquanto o som do riso ia ficando mais e mais distante. 

Entendia a aranha prender insetos em sua teia para devorá-los, entendia a cobra engolir o sapo, entendia o pai criar animais para abater. Entendia tantas coisas! Mas aquilo não! Por mais que tentasse. Entendeu mais tarde, que, naquele dia, fora-lhe apresentado, sem maquiagem, o retrato da Perversidade.

Odenilde Nogueira Martins


           
           


“GERAÇÃO VIVA” COMPLETA QUARENTA ANOS - JOÃO MANUEL SIMÕES - CURITIBA/PR

Assim se expressou o escritor, ensaísta e crítico literário João Manuel Simões -  Curitiba / PR- sobre a obra de David Gonçalves "Geração viva":

"Geração viva" um pugilo de contos com a marca da excelência. Ainda que produzidos “in ilo tempore”, na sua textualidade já se pressente, já se anuncia a voz inconfundível de um dos maiores contistas brasileiros que enriquecem a contemporaneidade.

O conto inaugural, que dá o título ao volume, é uma pequena 
obra-prima.

Estruturas peripeciais, tessituras narratológicas, forma e conteúdo, estilo e temática, tudo isso faz dos contos de David Gonçalves marcos miliários do regionalismo brasileiro. Há neles, com efeito, numa presença ubíqua, ecos, reflexos e matizes dos grandes mestres do gênero, de Simôes Lopes Neto a Lins do Rego, de Graciliano a Guimarães Rosa, e até mesmo de Dalton Trevisan, que, a rigor, é também um regionalista – não rural, mas urbano.

E seria o caso de lembrar até mesmo o quinteto de ouro da criação contística na província do regionalismo luso: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Alves Redol e João de Araújo Correia.

Mas atenção: em David Gonçalves, como em todos os mestres arrolados, a região, numa sutil metamorfose, vira mundo, e o regional tangencia, quando não secantiza, o universal. Mais ou menos como preconiza, algures, um gênio que se chamou Dostoiévski.

JOÃO MANUEL SIMÕES -CURITIBA/PR

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Escritor David Gonçalves

O ex-herói - crônica - Hilton Gorresen

Não cheguei a conhecer Aldonço Barreira. Chegou à cidadezinha aí pela década de 1970, já passando dos 60 anos, instalou-se numa casinha alugada, com quintal de goiabeiras e pés de carambola, e logo fez amizade com a vizinhança.
Bom conversador, foi aos poucos se tornando conhecido na localidade por conta de uma vida pregressa cheia de aventuras e conquistas. O povinho se quedava estarrecido com suas histórias. Aos 16 anos fugiu de casa para embarcar num navio de carga que cobria o litoral do país. Como marinheiro, teve seus primeiros casos amorosos, uma bela rapariga em cada cidade (ou em cada zona). Já com dezoito anos, tomou uma resolução maluca: foi juntar-se ao exército americano na guerra da Coreia. Por atos de bravura nesse conflito, recebeu medalha do governo americano. 

E já que estava naquele país, dirigiu-se a Hollywood, onde conseguiu um cargo de segurança da atriz Rita Hayworth, lembram dela em “Gilda”? Com isso, teve proximidade com as outras estrelas, não deixou escapar nenhuma delas. Apresentava diversas fotos, em uma pose provocativa, dedicadas “ao querido Aldonço, com carinho”. Fez até algumas “pontas” em filmes para reforçar o orçamento.

Não falei ainda do período em que se alistou na Legião Estrangeira francesa para servir na Argélia. Lutou contra os berberes do deserto, e, no tempo livre, ainda amou uma misteriosa dançarina de cabaré em Argel. 
Mas ainda encontrou tempo para conquistar uma imensidade de vitórias esportivas. Que admirassem sua enorme coleção de troféus: futebol, basquete, 100 metros rasos, natação, tudo ali registradinho. 

Desde criança, Aldonço teve a mania de colecionar “provas” de seus sonhos mais loucos. Começou tirando fotos vestido de marinheiro num navio aberto à visitação no porto. Tomou conhecimento da tal guerra da Coreia pelas aventuras na época publicadas nos gibis; daí a se investir como heroico personagem desse conflito foi só fechar os olhos.
Ainda jovem, amante de cinema, escreveu a todas suas artistas preferidas, solicitando fotos autografadas. Interessou-se pelos feitos da Legião Estrangeira depois de assistir ao filme “Beau Geste”. Num carnaval, fantasiado de legionário, tirou uma foto entre belas odaliscas.

Modesto funcionário de repartição pública, começou a encomendar troféus e medalhas das mais variadas modalidades esportivas. Conseguiu mesmo a cunhagem de medalha do governo americano, declarando-o herói; essa custou uma nota.

Aldonço faleceu há pouco tempo, indo certamente para o céu dos heróis.
Crônica publicada no jorna A Gazeta de SBS, em 06.05.2017

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Hilton Gorresen
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Poema - Romã

Romã
Como romã, por fora inteira
Por dentro, casulos de grãos vermelhos
Metamorfose constante,
Perdida em tantos descaminhos
De confusas retas,
Ora em alegre desvario,
Ora triste, ora quieta.

Corpo convulso em calafrios,
Composé de fatos e cores
Em horas de tempos...
De sustos, quereres,
Sarcófago de pedra calcária,
Lacrado...
À espera da carne consumir-se

Metades de tudo e nada.
Paradoxo, redemoinho,
Divergências tantas...
Pois a alma que me tem,
Mansa não é.
A alma que eu tenho,
É cheia de cheganças.

Nauseada em vórtices de paixões,
Oscilante à beira do caos,
Gira que gira em torvelinho arrastada,
Assim, sem destino, andarilha do tempo,
Esquecido das noites, também dos dias,
Caminhar reto, teimoso e lento.

Na noite sacrossanta, ela,
A alma inquieta,
Espia, espicha-se, embrenha-se...
Por entre as escuridões vela,
A Lua de prata tão alta, tão distante...

E tão bela.
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé, nuvem, céu, oceano, atividades ao ar livre, água e natureza

Odenilde Nogueira Martins