Dor - conto - Odenilde Nogueira Martins

Dor

            Parecia que lhe esmagavam o peito, tamanha era a dor que sentia.
            - Sua vaca! Você trouxe essas merdas aqui! Você vai me pagar! Te suma da minha frente e leve essas fedorentas daqui!
            Foi assim que a mãe gritou-lhe ao avistar, chegando ao portão, as duas fisioterapeutas, que a custa de muita economia, os filhos contrataram para reabilitá-la, fora vítima de um AVC isquêmico.
            Dona Leôncia fora encontrada caída no chão de seu quarto por um dos filhos. Ficara internada em uma unidade especializada em AVC agudo por vinte dias, depois, transferida para um hospital clínico por mais dez. Foram dias muito sombrios e, alguns deles, sem esperança de que teriam a mãe de volta.
            No entanto, lá estava dona Leôncia de volta a casa. O Natal foi comemorado com muita gratidão a Deus por permitir que ela voltasse. Tinham pela frente um caminho árduo, sabiam disso.
            - Mãe, por favor, se acalma. Elas estão aqui para te ajudar a deixar a cama, para que você volte a andar.
            - Cala a boca! Eu vou quebrar a tua cara! Eu não comando mais a minha vida? Já não disse que não quero? É você que decide na minha casa? Sua vaca! Cadela!
            - Mãe, por favor, é para o teu bem. Nós só queremos te ver andando novamente. Se você não fizer a fisioterapia, vai ficar entrevada na cama.
            A cena descrita já acontecera outras vezes desde que a reabilitação começara, e a dor também não era nova, mas sempre sentida com a mesma intensidade pela filha.
2
            - Nelson! Nelson! Onde se enfiou esse homem de Deus!
            - O Nelson tá no outro mundo, mulher!
            - Eu sei!
            - Então, por que tá chamando? Quem eu sou?
            - Não tô chamando! Você tá louco, Mauro! Onde é que você tava que demorou tanto? Atrás de mulher, seu sem-vergonha! Pensa que eu sou boba? Tô de olho aberto com você. Vou contar pro meu filho. Você vai ver! Vou te mandar embora! – gritava, dedo em riste.
            - Se me mandar embora, quem vai cuidar de ti?
            - Arrumo outro!
            Todas as noites, era Nelson, o falecido marido que dona Lia chamava. Parecia que Mauro, o marido atual, não existia em sua memória delirante. Sofrera um AVC no mesmo dia que dona Leôncia. Tem três filhos que não aparecem nunca! É o pobre Mauro, chamado nos delírios por Nelson, o falecido, quem ficava vinte e quatro horas, todos os dias, como acompanhante.
3
            - Então você vai viajar? Para onde?
            - Vou para a Europa.
            - Com quem?
            - Com três amigas.
            - Está cheio de “amigas”!
            - É verdade. Sempre estive cercado de muitas mulheres.
            - Por que veio aqui se tem tantas mulheres?
            - Vim te visitar. Você é minha amiga.
            - Que amiga! Não quero ser tua “amiga”!
            - Parece que está com ciúme! Não tenho culpa se as mulheres vivem me cercando! – tudo foi dito com voz e trejeitos efeminados pelo homem de cabelos brancos a uma senhora de noventa e dois anos! - Eu e você somos amigos. Só isso! Não quero nada mais com você.
            - Ele gosta muito de mim. Casa comigo na hora que eu quiser. Para a minha família, ele é meu noivo - dizia dona Valda a uma moça que se encontrava no quarto, depois que o assediado pretende saiu. – Eu é que não me decidi.
            Dona Valda se expressava muito bem, era pintora e contava que o filho construíra um atelier novo para que pudesse pintar em um espaço amplo, arejado e com boa iluminação.
            Mayara estranhou o filho ter se preocupado em construir-lhe um bom atelier, já que no dia em Valda chegou, ele a deixou dizendo que voltaria logo e nem sinal. A senhora passou a noite sozinha. Quando foi servido o lanche da noite, penalizada, a moça acordou a anciã:
            - Dona Valda, trouxeram um lanche. A senhora quer comer?
            - Ah! O meu filho trouxe? Onde ele foi? – perguntou ansiosa, os olhos correndo pelo quarto.
            - Não. O seu filho ainda não chegou. Quer que eu ajude a senhora a sentar-se?
            - Sim. Obrigada, minha filha. Eu não consigo comer deitada. Será que você pode me dar um copo de água? O meu filho disse que ia buscar um ventilador e que já voltava.
            - Então ele não vai demorar.
            Mayara nunca viu o tal filho. Quem passou a acompanhar a mulher, durante a noite, foi uma jovem estagiária de enfermagem, paga pela própria Valda. Durante o dia contava com a ajuda de outras pessoas que por ali passavam, enquanto se recuperava de uma pneumonia.
4
            - Essa balofa, aí do lado, roubou uma blusa minha! – gritava dona Leôncia, apontando para Lia.
            - Não, vó. Ninguém roubou nada – tentava acalmá-la, Silmara, a nora.
            - Roubou sim! Eu vi! Tá dentro da bolsa dela. Pegue a minha blusa!
            - Vó, não faz assim. Dona Lia vai se ofender.
            - Devolva já, sua ladrona!
            - Eu não roubei nada – defendia-se a mulher. – Pode olhar!
            - A senhora desculpe. Claro que a senhora não roubou. Dona Leôncia está confusa – explicava a nora, tentando desculpar a atitude da sogra.
            - Ela tá roubando todas as minhas coisas! Até os meus cremes e sabonete. Quero a minha blusa de volta! – gritava.
            Quando a filha chegou ao hospital, encontrou a mãe vestindo uma camiseta cor de abóbora, com os pés calçados e de fralda geriatra.  O olhar da cunhada dizia: O que fazer? Explicou que, com a permissão de dona Lia, mostrara a Leôncia as coisas de sua bolsa. A camiseta regata, segundo a sogra, fora roubada e para garantir que não mais seria furtada, fez com que a vestissem.  Mayara não sabia se ria ou se chorava, a cena era no mínimo tragicômica.
5
            Ainda não conseguia entender sua incapacidade de ver a fragilidade daquela mulher. Para ela, a velhice, a fraqueza muscular e óssea, a carência de atenção, eram insignificantes. Ela era uma mulher forte, altiva e independente.
            - Seis filhos e ninguém pra me socorrer! – foi o que disse, ainda de maneira clara.
            Era terça-feira, 11.30, quando entrou em casa, o celular, que havia deixado sobre a cama, estava tocando. Era um de seus irmãos, que sequer conseguia lembrar qual deles, dizia-lhe:
            - Nossa mãe está aqui no Hospital Santo Antônio. Ela está muito mal.
            O resto de que foi falado, também não se recorda. Se é que algo mais foi dito.  Incapaz de entender o que estava acontecendo, viu-se diante do hospital.
            “Minha mãe em um hospital!” – pensava incrédula. Aquela mulher, que sempre vira como uma rocha, em um hospital?
            “Deve ser um engano ou um afobamento de meu irmão que sempre foi muito medroso quando o assunto é saúde” – tranquilizava-se.
            Como atravessou a rua? Não sabe. Passando pelo portão, viu seus irmãos. Era claro o desespero no rosto de cada um. Santiago estava sentado sobre uma mureta com o rosto encravado entre as mãos, soluçando convulsivamente.
            “Meu Deus! O que era aquilo tudo? Minha mãe! Imagine! Eles devem estar dramatizando!” – tentava convencer-se.
            - O que aconteceu? Por que a mãe está aqui?
            - Ela teve um AVC – respondeu uma das irmãs. – Nós te ligamos muitas vezes, deixamos mensagens, mas você não atendia.
            “Eu e minha maldita mania de achar que não devia levar celular para a escola, já que é expressamente proibido o uso do aparelho pelos alunos. Amaldiçoou o meu senso de “certo” e “errado”, a obsessão em cumprir regras!”- maldizia-se.
            - Às cinco horas me levantei pra ir ao banheiro, vi a luz do quarto dela acesa e pensei: “A mãe tá se levantando agora, dá pra dormir mais um pouco. E voltei pra cama.” Às sete e pouco, levantei pra me arrumar pra trabalhar, olhei pela janela, vi que a porta estava fechada e a cuia de chimarrão estava em cima da mesa. Chamei:
            - Vó! Tá tudo bem? – ouvi ela resmungar e pensei: “Tá no banheiro escovando os dentes.” Fui no muro e chamei novamente e ela resmungou. Pensei que ela estava mesmo escovando os dentes. Entrei, terminei de me arrumar, peguei a moto e falei pra Miranda:
            -Venha junto. Vamos passar na mãe pra ver se está tudo bem. A Miranda entrou e eu fiquei no portão, em cima da moto. A Miranda olhou pela janela do quarto e ela estava caída no chão. Arrombei a porta, deixei a moto, peguei o carro e levei pro PA. É o mais perto. O médico examinou, botou na ambulância e veio acompanhando. Disse que ela teve um AVC e que o atendimento nas quatro primeiras horas era muito importante para a recuperação dela.  Quanto tempo ela estava caída? Por que eu não fui lá quando vi a luz acesa? Por quê? Meu Deus! Por que eu não fui lá antes! – lamentava-se, desesperado.
            - Estava na casa dela e fui dormir na casa da minha cunhada ao invés de ficar ali. Falei pra ela: “- Vó, eu vou dormir lá na Mari. Ela me ajuda a passar a limpar o terreno e depois venho limpar a tua casa. Ela me disse: “Pode ir”. Ela estava bem! Se eu tivesse ficado, ela tinha sido socorrida antes. Por que eu não fiquei! – dizia em pranto uma de minhas irmãs.
            Por que, por que... Por quê? As culpas começaram a ser confessadas, pensava que era a forma de se aliviar o desespero. Como não perceberam que a mãe estava vulnerável, que tinha envelhecido? Setenta e seis anos! E achavam que nada lhe aconteceria! Refletia, agora, que existe uma incapacidade de se perceber que os pais são mortais, assim como quando jovens, a mãe é um ser assexuado. Não se enxerga a mulher com necessidades de mulher. Acha-se que mãe sempre vai estar por perto para confortar e segurar a barra, inquebrável, forte, inatingível pelas mazelas, que no dia a dia atingem outras mães! A deles não! A deles viveria para sempre! Triste engano! E quando nos deparamos com a realidade, ficamos completamente desprotegidos e cheios de culpas. A mãe não mais estaria por perto para perder sono, por causa de um dos filhos, sofrer porque sofriam, sempre vigilante as suas falhas, aos seus problemas. A mulher que jamais se arcaria, está ali... Completamente indefesa e pode deixá-los em um segundo! Como lidar com essa verdade? Tirar forças de onde se é ela quem sempre fez isso?
            Ah! Dona Leôncia! Que vida a tua! As lembranças corriam por sua cabeça. Estava diante de Mayara, a mulher alta, forte, com uma vida de sofrimentos: seis filhos, marido alcoólatra que a espancava. Viveu com ele uma vida de tristezas. Seis filhos, tinha de aguentar! dizia ela quando perguntavam por que não o deixara! Viúva aos vinte nove anos! O marido morrera vítima de cirrose hepática. Não precisariam mais, no meio da noite, pedir socorro em casa do primeiro vizinho que lhes abrisse a porta.  Aquele tempo acabara finalmente! Vida nova! Nem conseguiu sentir verdadeiramente sua morte. O que sentiu foi certo alívio. Lembrava-se que, chegando a casa, após o enterro, sentou-me com três de seus irmãos e, aos doze anos, planejou como seriam suas vidas sem o pai. Não havia tristeza.
6
            Mayara e os irmãos têm visto a mãe, dia a dia, como uma pessoa diferente: já viram a mulher de setenta e sete anos ser uma mocinha apaixonada, querendo estar perfumada e maquiada, enfeitada com muitos badulaques para impressionar o cuidador- amor de sua vida-, a paixão pelo médico que a acompanha, as crises de ciúme por julgar estar sendo traída pelas filhas, ora a mãe amorosa ora violenta, por vezes, uma casca sem lembranças, por vezes, de uma lucidez dolorosa, consciente de sua completa dependência. Precisam saber lidar com os momentos terríveis em que a mãe não os reconhece e os chama incessantemente, implorando que a levem para a casa dela. São tantas as provações!
            Mayara, quando se sente perdida, pensa:
            “É isso que temos. E podemos suportar. Se, quase o tempo todo, ela não sabe quem somos, nós sabemos que é nossa mãe.”

           
 
Odenilde Nogueira Martins

           
           
           

            

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