TEIMAS DE ANÉSIO - Onévio, causos dos fundões / Onévio Antonio Zabot

Apequenado de tamanho - pouco mais de metro e meio -, nunca de teima. Só podia ser Anésio: tiguerado feito joá amarguento, espinhoso e reticente. Sobressaia-lhe a feição soturna: um par de olhos miúdos e enfiados na testa, e as pernas arqueadas de domar burro bravo. Rude e indomável, toda sua formação vinha da escola do mundo, do mato, já que pouco freqüentará a cidade. Pedra podia ser pedra, desde que estivesse de acordo. Do contrário, podia ser pau, o diabo. Mudar de idéia!... Nunca. Não era doido, nem vassoura varrida.
Prá azedar o homem chegando à lua (1969, julho, dia 20, coisa de 23:56:31). Anésio empombou-se, desandando de vez. Naquela tarde, como de costume oitavado no balcão do boteco interiorano, indignado e incrédulo, confabulava:
– Pousam em algum cafezal geado, e dizem... 
– É a lua. 
– Diabo! É o fim... 
– Rafaelão, ao lado - cabisbaixo - repuxando a aba do chapéu, assente: 
- É!... Em quem confiar? Mexer com Deus é o que querem.
Afrontá-lo, afirmar o contrário, quem ousaria? Matias Vilaverde, o mais valente, mesmo com três culhões , escafedeu-se.
Anésio – figura intrépida – de birra invocava por qualquer coisa. De índole imprevisível, voltava-e-meia, depois de alguma cachaça, metia-se em encrenca. Qualidade única, se era: resolvia as diferenças no braço. Nada de arma branca, de bala. 
Implacável, meias-botas de couro crú, barreadas e ressequidas, adentrava diariamente à vendinha do interior. Coisa de final de tarde, 17h00 horas. 
- Uma cachaça, seu Luiz!... Copo à mão, depois de oferecer aos presentes, cortesia de boteco, de uma talagada, entornava. De bate-pronto, disparava uma cuspida a capricho na alquebrada parede. O torpedo descia escorregando entre sacos da farinha de mandioca, adernando-se na velha prancharia de peroba. 
Contrariado, naquela tarde, mastigava freios. Eis que surge Américo, sujeito franzino, uma besta humana. Fofocas mal resolvida atravessaram o caminho. E ambos deram-se à forra.
No gramado, do lado de fora da vendinha, o pau cantou. Socos, pontapés, rasteiras. Tudo a rodo. O velho granjeara fama de ser bom de rasteira, de roda-botas. E não deu outra, a surra foi das boas. De parte a aparte, ameaças de morte e promessas de tiros. Calaram-se, todos se calaram na velha vendinha interiorana. Ainda bem. Ninguém viu, muito menos ouviu nada. Roupas esfarrapas, chamuscadas de grama, esverdeadas. E só. 
Todos sabendo de tudo. Vazou. Anésio, pai de família, andava de caso com uma cunhada. O comentário partiu de Dona Maria, a parteira. Dona Ana, irmãs de Delcides, mulher de Anésio, acabará de dar a luz a dois gêmeos. Veio abaixo o mundo, ficou pequeno o lugarejo. Cochicho espichado, longo, de azucrinar. Reboliço adoidado. Rezadeiras, resignadas, benziam-se. O capeta anda solto, comentavam.
E pra completar... Mais confusão no povoado (caralho que o parta!): Dilma, mulher de Zé Baiano deu em flertar com Zé Pernambuco, seu melhor amigo de pescarias. Pegos em flagrante, o lugarejo ficou pequeno para tanta zoeira. Nada demais, se tudo não estourasse na venda de seu Luiz, domingo à tarde. 
Baiano que jogava bocha, diante da chegada de Pernambuco, não titubeou, ergueu a camisa, alçou a velha a garrucha e tascou fogo. Coisa de dois tiros: um de cada cano. Um corre-corre dos diabos. Felizmente, entre mortes e feridos todos se salvaram. Baiano, andava mal de pontaria.
Anésio, encurralado por Delcides, a infeliz esposa, passou a dormir na tuia de café, encima de uma velha lona, arreiada de fazer dó. 
E dias desses, meteu susto na vizinhança. Coisa de meia noite, todos ouviram estampidos, disparos de arma de fogo vindo do rancho ao lado. O barulho ecoou surdo pelos carreadores, captado por meio-mundo. 
- Deve estar morto, esse filho duma puta, cismou Delcides.
Todos correram ao mesmo tempo. No escuro, o cheiro de pólvora era insuportável. Pelo jeito detonara os dois canos de uma única vez. Seria contra o peito, contra a cabeça. Onde estariam os miolos? Certamente dependurados no teto. Que nada!
Veio a baixo o mundo: 
- Avante, sosseguem, esbravejou furioso o vivente, afundado no rancho! 
- Levem o rato com vocês!... E lançou o estranho imbróglio sobre Neusa, a filha 
mais velha. 
Assim era Anésio: imprevisível. Dera cabo de um rato a tirambaços, tirambaços de-acaba-mundo, abrindo o teto do velho rancho. 
Entreolharam-se, todos se entreolharam boquiabertos, enorme furo no teto; taboinhas voaram. Concertá-las à noite... pouco provável. Chovia. E a chuva tudo molhava. 
E Anésio deu de recarregar a chumbeira de cano duplo. Socava a vareta cano adentro e socava: pólvora-e-bucha, chumbo-e-bucha, às camadas. Em seguida - batendo na concha da mão -, ajustou a espoleta. Incontinenti e negaceando, armou o gatilho. Olhos esbugalhados de caçador de nuvens. Apavorados, todos deram o fora. 
Naquela noite os disparos, intermitentes, cadenciavam-se de quando em quando, rebombando pingos de chuva. 
Anésio era Anésio: desnorteado atirava à toa.

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Onévio, causos dos fundões.

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