AS COISAS NÃO DITAS - crônica - Hilton Görresen


Todos nós utilizamos a linguagem, mas muitos não percebem que num ato de comunicação, como a fala ou a escrita, é comum a existência de coisas não ditas. Nem sempre deixamos claro aquilo que pensamos ou desejamos que os outros entendam. E usamos o que se chama de informações implícitas. Ligados a elas, estão os pressupostos e os subentendidos. Calma, já vou explicar.
Pressupostos são aquelas informações que queremos dar como certas, já de conhecimento do interlocutor. Ex.: “Finalmente, Fulano conseguiu conquistar a Claudinha”.  O autor da frase dá como certo que já houve tentativas anteriores de Fulano para conseguir seu intento. Outra: “Fulano já voltou de viagem”. Não é preciso dizer que Fulano estava viajando, isso está pressuposto.
Usam-se também os pressupostos para manipular os ouvintes/leitores, dando como certa uma informação que é contestável. “Quem é mais feio, Fulano ou o Shreck?”. Neste caso, aquele que pergunta dá como pressuposto o que é somente uma opinião individual: que Fulano é feio. E deixa o interlocutor numa situação embaraçosa; qualquer resposta que dê nesse sentido, estará admitindo a feiura de Fulano. De bom senso seria desfazer o pressuposto, voltar à raiz da frase, com uma contestação: e quem disse que Fulano é feio?
Subentendidos são aquilo que se diz não dizendo. Tenho uma crônica que se inicia assim: “Atenção, leitor, esta é uma história tétrica. Por favor, chame as crianças”.  Há aí uma informação subentendida, a de que são as crianças que mais “curtem” as histórias de terror.
Normalmente, utilizam subentendidos pessoas que não querem dizer algo explicitamente, por efeito humorístico, por maldade, ou para evitar responsabilidades. Perguntado sobre a competência de um colega de serviço, o funcionário afirma apenas: ele é um cara muito educado. Subentendido: não apresenta nenhuma qualidade destacável. Nesse caso, o “dedo duro” não pode ser censurado, pois “nada disse” em detrimento do colega.
Mas a linguagem serve também para mascarar interesses de pessoas ou de grupos, procurando enobrecer atos que seriam condenáveis. que seriam condens as ou de grupo. Sob o nome de “filantropia”, por exemplo, pode haver a “venda” de imagem, num trabalho de marketing.  Algumas “bondades”, com denominações variadas, às vezes não passam de manobras eleitoreiras.

Veja, leitor, que o uso da linguagem se aprende na prática, na observação. O que vai mais além da “decoreba” de teorias, suas regras e exceções. 
Hilton Gorresen


Hilton Görresen, nascido em São Francisco do Sul, onde morou até a década de 1960, é formado em Letras, com especialização em Língua Portuguesa.

Exerceu atividades como instrutor de cursos, redator e revisor de publicações.

Foi, durante anos, cronista de "A Notícia", de Joinville, e tem publicadas diversas obras, além de colaborações em antologias e em sites na internet.

É atualmente cronista semanal do jornal Notícias de Dia; membro da Academia de Letras e Artes de São Francisco do Sul – ALASFS, da Associação Confraria das Letras, e da Academia Joinvilense de Letras. 

Obras publicadas: 
Com Humor se Paga – crônicas -2004
Mostrando a Língua – crônicas sobre linguagem - 2005
São Chico Velho de Guerra – memórias – 1ª edição: 2007 – 2ª edição: 2009
O que aprendi sobre redação – e posso lhe ensinar – 2008
Quando minha avó tirava a roupa – crônicas – 2012
Histórias para ler no banheiro – crônicas – 2013
A Língua é nossa – Linguagem e comunicação – 2013

A publicar:
Elefante Branco – crônicas
Por que matei Rocky Lane - contos



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