OS CÃES LADRAM - CONTO - ODENILDE N. MARTINS


De um salto se pôs em pé, alerta, nervos tensos feitos corda de violão, respiração curta e acelerada. O que o acordara soara como um estampido que tanto podia ser de um disparo de arma de fogo como o som seco de uma porta batendo. Na dúvida, o melhor era procurar proteger-se. Escorregou para o assoalho e, silenciosamente, rastejou na escuridão até chegar diante da janela da sala; esta, permitia-lhe uma visão ampla da rua principal. 

A frente de sua casa estava escura, a lâmpada do poste que iluminava sua sala estava apagada. Procurou lembrar-se se, na noite anterior, a mesma estava acesa. Não conseguiu, chegara tão cansado que o sono o tomou antes mesmo de banhar-se, no sofá onde se recostara para assistir ao jornal local. Acordou com o estardalhaço de cães, parecia que todos os que havia na rua resolveram latir juntos, uma mistura de latidos e uivos dolorosos. 

Olhos atentos esquadrinhavam cada palmo que a vista alcançava, sem sucesso. Ouvidos aguçados buscavam qualquer som que não fosse o ladrar dos cães. Impossível ouvir qualquer coisa. Quando ia levantar-se, percebeu que luzes eram acesas em algumas casas vizinhas. A cautela ordenou-lhe que permanecesse deitado, imóvel.

O ladrar dos cães ia ficando mais comprido. Espichava-se rua abaixo e já corria de ponta a ponta, mais ou menos intenso à medida que descia. Conforme os latidos cessavam, outras lâmpadas da iluminação pública iam se apagando. O que estava acontecendo? Apesar de algumas casas estarem iluminadas, ninguém saía. Sentiu-se ainda mais só e intrigado.

Desde que se mudara para a simpática casa de varanda ampla e de belas floreiras nas janelas, quantas vezes o fato se repetira? Certa manhã até conversou com o vizinho da direita sobre o acontecido, buscando saber se o mesmo tinha ouvido a algazarra canina. O homem disse que não estava em casa naquela noite, então nada sabia, mas que acreditava que alguém devia ter passado pela rua e atiçado os cães. Naquele momento, a explicação pareceu bem convincente.

Em outra ocasião, viu o homem da casa da direita chegando, diminuiu o passo com a intenção de iniciar uma conversa sobre o fato que se repetira. O boa noite foi ignorado pelo homem que entrou em casa sem sequer levantar a cabeça. Não estava a fim de conversa. Tentou com uma senhora, da casa à esquerda, que saíra à janela e espiava a empregada que lavava a calçada. Quando a mulher ergueu os olhos e se deparou com ele esboçando um sorriso e com um bom dia, sem cerimônia alguma fechou a janela. Não seria fácil fazer amizades por ali. Quase sentia que não era bem-vindo, mas essa suspeita não tinha fundamento.

Mais uma noite de sono perdido. Que horas seriam? Consultou o celular que havia pegado no criado mudo antes de ir para a sala: três horas. Viu as casas mergulharem em escuridão novamente, o silêncio voltava a reinar e até as luzes dos postes voltavam a clarear a rua, inclusive a do poste em frente de sua janela. O que fora aquilo? Não conseguia imaginar. Ainda tinha umas boas três horas para dormir e, assim sendo, voltou para o conforto de sua cama, decidido a ficar na cidade, no sábado seguinte, para explorar a vizinhança na tentativa de entabular relações. Impossível que todos sejam arredios, concluía. O resto da noite foi de absoluta calma, o que lhe permitiu adormecer sem esforço.

A manhã de sábado apesar de ensolarada, estava com temperatura muito agradável, “perfeita para uma caminhada”, pensou. Vestiu uma calça de moletom e uma camisa de malha, calçou um par de tênis confortável e assim saiu porta afora. Andaria pela rua toda. 

Enquanto caminhava, espiava, discretamente os jardins, demorando-se mais diante das casas cujas portas e janelas estavam abertas. Fazia de conta que parava para alongar-se, na esperança de que algum morador saísse e ele pudesse iniciar uma conversa, comentando o quanto estava agradável a manhã. 

A rua era tranqüilidade pura, vez por outra, via um morador movimentar-se dentro de casa de um cômodo para o outro, sem, no entanto, dirigir um olhar para o lado de fora. Observou que não havia muros separando uma habitação da outra, só uma espécie de cerca viva, bem aparada com aproximadamente um metro de altura. Eram casas muito antigas, circundadas por jardins bem cuidados, cuja grama estendia-se como tapete verde e macio e unia-se aos demais.

Quando já chegava no final da rua, do outro lado, avistou uma senhora que regava uma pequeno ipê que fora plantado em frente à casa, a única cercada por um muro alto que a isolava das demais. Ao lado, um pequeno chalé, de um verde desbotado, destoava das demais moradias, telhado e floreiras cobertos de musgo, quintal tomado por diferentes gramíneas, em evidente estado de abandono. Atravessou a rua. Ali estava a oportunidade de falar com alguém. Antes que dissesse algo, foi saudado com um sonoro bom dia acompanhado de um sorriso que se estampava pelo rosto inteiro. Surpreso, parou. Identificou-se como sendo o morador novo. Ela disse que sabia quem ele era. O cãozinho que estava ao lado da mulher arreganhou os dentes e, então, o homem deu-se conta de que aquele era o único que avistara.

Violante era o nome da simpática senhora que o convidou para entrar e ofereceu-lhe um chá, aceito sem delongas. Era viúva, o marido morrera há cinco anos, e a casa abandonada fora da filha. Quando perguntada sobre a filha, fez-se de surda, desconversou convidando-o a conhecer os pássaros que tinha. Uma beleza! A conversa girou em torno das aves e da variedade de flores que cultivava. Seu passatempo e companhia.

Perto das dez horas, perguntou a respeito do acontecido, pontualmente, às sextas-feiras desde que chegara, foi delicadamente dispensado e convidado a voltar sempre que tivesse vontade. Soube que a casa em que morava ficara bastante tempo vazia e que, quando foi alugada, despertou desgosto aos outros moradores. Acostumados às mesmas pessoas, temiam que sua rotina fosse alterada, disse a mulher como que para desculpar a atitude pouco simpática daquela gente. Passou a visitar Violante semanalmente e sempre que tentava falar a respeito das noites de sexta-feira, a velha senhora encerrava a visita, alegando algum compromisso.

O rapaz resolveu que passaria a Páscoa na cidade e convidou alguns familiares e dois amigos para passar com ele. Convite prontamente aceito pela mãe, uma irmã e os amigos. A Sexta-Feira Santa foi de preparativos. À noite, desfrutavam da brisa agradável na varanda, a conversa animada. Lá pelas 21h, uma estranha movimentação acontecia. Casais com trajes fora de moda desciam a rua aos pares, calados, sem voltar a cabeça para os lados um momento sequer. Acordes de uma música suave podia-se ouvir fracamente.

“Festa à fantasia em plena Sexta-Feira Santa?” – murmurou a mãe do rapaz como se falasse consigo mesma.

Passada mais ou menos uma hora, depois do estranho desfile, resolveram descer a rua para ver onde a reunião estava acontecendo, já que o fato ocorria em data não festiva e em uma vizinhança tão arredia.

Todas as casas estavam às escuras, exceto a de dona Violante e àquela que, dois dias antes, estava abandonada há anos. Deviam estar todos na festa. Chegando em frente à casa da velha senhora, viram-na atrás da cortina espiando a casa vizinha. Era na casa de sua filha que a reunião acontecia.

“Não é possível! Antes de ontem esta casa estava em péssimas condições e tomada pelo mato! – murmurou o amigo de Violante.

“Vai ver mudaram ontem” – observou um dos amigos.

“Então são mágicos. Moro aqui há seis meses e a única pessoa que se dispôs a falar comigo é esta senhora que está espiando. E parece ser a única que não foi convidada, além de mim, é claro. Vamos ver mais de perto.”

A casa estava com a porta principal e as janelas fechadas, apenas as cortinas foram afastadas. A iluminação era fraca e só o que se podia ver, através das vidraças, eram silhuetas desfocadas, que vez por outra, iam de um lado para o outro. Nenhum outro detalhe interno. Nada de vozes, só as mesmas notas musicais que se repetiam como se tocadas em disco de vinil arranhado.

“Espantoso! A casa parece nunca ter sido abandonada! A pintura, o jardim...” – meneava a cabeça com um olhar incrédulo.

Uma sensação de mal-estar se apossou de todos, voltaram a passos acelerados para casa. Ninguém falava nada.

“ Que coisa esquisita. Não parecia ser uma festa” – observou a irmão do rapaz.

Nada mais foi dito. Todos se recolheram e foram dormir, menos o anfitrião. Sentia desconforto ao lembrar de Violante por trás da janela espiando, com expressão de profundo pesar. Também se lembrou de que ela tinha tentado convencê-lo a não passar a Páscoa ali. 

Esquecido estava da hora, quando um estampido ecoou e os cães começaram a ladrar, ora raivosamente ora tristemente em uivos longos. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Quis levantar-se, entretanto, parecia estar pregado ao chão, incapaz de mexer-se. O queixo tremia e a voz não saía. Era a sensação mais aterradora que já vivera. 

“O que foi isto?” – perguntou-lhe a mãe. “E esses cães uivando e latindo parecem estar vendo o coisa ruim. Cruz credo” – finalizou, benzendo-se.

“Há seis meses tento saber o que é...” – começou a dizer, mas calou-se repentinamente. Subia a rua, correndo, uma jovem seguida por um homem, também jovem, que empunhava o que parecia ser uma arma.

A jovem foi alcançada em frente à casa, quase na entrada na varanda onde todos estavam. Com a mão que estava livre, o homem a segurou pelos longos cabelos e com a outra, disparou um tiro em seu rosto.

Estarrecidos, diante daquela cena macabra, viram o homem sumir por onde tinha vindo, sem nem mesmo olhar para eles. Enquanto se afastava, uivos lúgubres o acompanhavam, assustadoramente, aumentando e diminuindo à medida que se afastava ou aproximava.

Saindo do torpor que os acometera, correram em direção ao telefone. Na central de polícia ninguém atendeu. Do hospital, disseram que não dispunham de ambulância. Voltaram à rua para socorrer a jovem. Não encontraram nem sinal dela. Desceram a rua, disparados, e se depararam com Violante que chorava copiosamente do lado de fora. 

A casa, onde acontecia a estranha reunião, estava mergulhada em escuridão e tinha o mesmo ar de abandono de antes. Ninguém conseguia articular uma palavra sequer, olhos arregalados de pavor.

“O que está acontecendo, dona Violante? Agora a senhora vai me dizer o que é isto tudo!”

“Há quarenta anos, na Sexta-Feira Santa, vejo minha filha morrer na frente da casa em que você mora, assassinada pelo marido tomado de ciúme.”

“Mas ouço o estampido do tiro e o ladrar dos cães, toda semana, às sextas-feiras. Não há nenhum cão na vizinhança a não ser o seu.”

“Todos pensaram que se sumissem com os bichinhos, estariam livres do pesadelo. Que engano! Nas noites de sexta-feira, meu genro fazia questão de reunir amigos, contra a vontade de Esmeralda, sabedora das consequências. Essas reuniões acabavam sempre do mesmo jeito, com minha filha correndo rua afora para fugir da fúria assassina do marido que sempre achava que algum dos amigos era seu amante. Sempre arranjava, para ela, um amante diferente. A família que morava onde você está é que a socorria dos ataques. Todas as outras fechavam as portas e apagavam as luzes. Ninguém queria se incomodar. Em minha casa, ela não podia socorrer-se, pois quando o fez, Durval arrombou a porta e agrediu meu marido.” 

“A Senhora está me dizendo que sua filha morreu há quarenta anos, em frente a minha casa e que...”

“Sim. O episódio se repete todos os anos na noite da Sexta-Feira Santa. Por isso, disse a você que não ficasse aqui.”

“Por que sua filha continuou a viver com esse homem?”

“Estavam casados há menos de um ano, e ele sempre a convencia de que a cena não mais se repetiria. Esmeralda desconhecia a existência daquela arma. Amava-o e acreditava nele.”

“E Durval, o que aconteceu com ele?”

“Enforcou-se, em seguida, na varanda”

__ Na semana seguinte, o rapaz deixou aquela casa, mas não deixou de visitar aquela pobre mulher que sofria todos os anos a dor de ver a filha morrer. Isso, meus amigos, aconteceu há cinquenta anos. Ainda hoje tenho vivo em minha memória o pavor que senti naquela noite tenebrosa. Naquele mesmo ano, Violante juntou-se à filha e ao marido e eu nunca mais voltei lá. Penso que se algum vizinho próximo tivesse aberto a porta para a jovem, naquela noite, ela não teria morrido. Os fatos, de acordo com o que acreditava a senhora, eram uma espécie de punição àqueles que não a ajudaram.

               ODENILDE N. MARTINS / 20/04/2014


Cara Odenilde, que espetáculo de conto. O caráter fantástico que o envolve faz dele uma narrativa realmente singular. Você é, sem dúvida, uma excelente contista. Vou analisá-lo junto com os outros que você me enviou. Ele tem de entrar no livro e em qualquer livro de antologia de conto. Parabéns!  https://www.facebook.com/thjfernandes?fref=ufi

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