SANGUE VERDE - DAVID GONÇALVES - ROMANCE SEM SIMILAR, SEGUNDO O PROFESSOR DOUTOR JOSÉ FERNANDES


SANGUE VERDE ─ ROMANCE SEM SIMILAR NA LITERATURA
O romance é uma espécie da ficção ou da narrativa que não dita regras rígidas para a sua composição. Entretanto, a maioria gira em torno de núcleos dramáticos limitados e de assuntos mais ou menos distintos, a fim de que a narrativa não se perca em emaranhados e peque por excesso de direções temáticas que dificultem a percepção do leitor. Mesmo romances extensos, tipo Grande sertão: veredas ou A montanha mágica, possuem personagens e assuntos que se desenrolam por toda a narrativa, mesmo que carregada de densidade metafísica. Não é essa, porém, característica de Sangue verde, romance de David Gonçalves, em que a narrativa, além de envolver um elevado número de núcleos dramáticos, não possui poucas personagens sobre que recaia a atenção do narrador, como vemos em Grande sertão: veredas. Em Sangue verde, os inúmeros núcleos dramáticos se devem à complexidade dos problemas abordados, uma vez que, grosso modo, toda a vida brasileira é devassada, pois toda ela está implicada com o sangue verde.

Para mais mostrar-se grandioso na arte de narrar, fatos e personagens também Ao ambientar-se no cerrado e na Amazônia, o romance aborda problemas típicos dessas regiões, ressaltando o garimpo que, embora já explorado por outros ficcionistas, como Herberto Salles e Eli Brasiliense, apresenta-se inteiramente novo, à medida que o interliga com o desmatamento e a grilagem de terras indígenas. As personagens se multiplicam em consonância com os episódios que as envolvem, exigindo do narrador verdadeira ginástica mental, a fim de que as inter-relações entre eles se mantenham, sem que padeçam de continuidade. se interligam, com a finalidade de não se tornarem estanques. Em decorrência, determinados índices, como a transferência de Padre Miguel, a despeito de ser narrado em capítulos próprios, são entrevistos em diálogo entre o fazendeiro, Bambico, e sua esposa, Clarice, e entre ela e a filha Emanuela. 

Dos problemas peculiares às regiões amazônica e de cerrado desprendem-se, como uma espécie de epidemia que se alastra por todo território nacional, todas as mazelas típicas desse tempo, como corrupção, pedofilia, pederastia, tendências religiosas pautadas pela exploração da boa fé do povo, desmandos provenientes das diversas faces dos poderes legislativo, judiciário, executivo. Em decorrência da multiplicidade de aspectos abordados, a técnica narrativa também se desenvolve em células que se multiplicam e se interligam, em uma espécie de teia de aranha, em que os fios carregam a seiva, venosa e venenosa, por toda extensão do narrado. Desse modo, acontecimentos suspeitos, como o assassinato do senador Justino, são retomados, en passant, na eleição de Bambico, sem que o episódio se esclareça, como se fosse apenas uma gota do veneno que viesse à tona, a fim de obrigar o leitor a manter-se ligado ao fio da teia dos fatos. Trata-se, sem dúvida, de uma técnica inusitada de narrar, uma vez que os núcleos dramáticos se interconectam de forma sutil, proveniente de uma relação aparentemente tênue e, às vezes, até ocasional, como ocorre no episódio em que juiz e delegado vão ao quilombo, à procura do assassino do ribeirinho, que se parecia resolvida; mas que reaparece, a fim de mostrar a morosidade e, sobretudo, a ineficiência da justiça, e, notadamente, o fio narrativo, que se mantém ativo. 

A estética do romance, além de centrar-se sobre essa técnica singular de narrar, ainda se erige sobre todas as formas do riso, caminhando desde o sutil humor, que tem sua origem em Stern, e adotado e refinado por Machado de Assis, passando pela ironia, pela sátira, até chegar ao sarcasmo, verificado, por exemplo, na concepção que Rossmac tem dos chamados pesquisadores de gabinete, ou nas esperanças que Bambico deposita em Juquinha como homem e futuro administrador de sua fazenda. Assim, à semelhança do que ocorre na obra de Machado de Assis, tem-se a impressão de que o narrador, ao registrar os acontecimentos nas teias do discurso, está sempre rindo e, às vezes, até gargalhando, do fato narrado, mormente quando se refere ao desmatamento e ao sonho de enriquecimento fácil e, notadamente, quando se relaciona com os poderes legislativo, judiciário e executivo. A sutileza com que desvenda a vida de Justino, após seu assassinato, mediante a presença da Constituição, da Bíblia e de um crucifixo em sua bagagem, torna o relato verdadeiramente cruel, uma vez que a outra bagagem, composta de fotos que comprovam o seu lado depravado, pautado pela pedofilia, demonstra a sua completa devassidão e sua inteira hipocrisia. Quer ironia maior que a descoberta feita por Bambico de que o verdadeiro ouro se encontra em Brasília e, não, nos garimpos, o que o leva a aceitar candidatar-se, sem qualquer experiência política, a senador da república?

Mas, há uma ironia intrigante, ao falar do judiciário e colocar como personagem o juiz Rodolfo, que, em meio a tantos desmandos e conluios, faz cumprir a lei. O cumprimento da lei, dadas as circunstâncias do espaço em que ele ocorre e, sobretudo, dados os acontecimentos nacionais, pode figurar como uma alegoria de um certo juiz do STF ou como refinada ironia, à medida que todos os fatos relacionados com a violência estampados no romance, inclusive a violência urbana, ocorrida com a família de Doca, deixam entrever que as leis existem apenas no papel e que fazê-las cumprirem-se é, muitas vezes, um suicídio. Esse é, sem dúvida, um dos golpes de mestre desse singular narrador que, inclusive, se duplica, ao ponto de se poder ler e ouvir sua voz conectada à voz de determinadas personagens, como ao narrar os sentimentos de Doca em relação a Matildes, à página 339. 

Ademais, a narrativa de Sangue verde procede a uma inusitada união entre o real e o imaginário, a fim de que o imaginado se sobreponha à realidade, ou com ela se equilibre, objetivando a instauração do ficcional e do estético, cristalizados mediante o caráter metafísico da linguagem que, por mais próxima que esteja do real, transubstancia-o e converte-o em objeto de imaginário. É exatamente por isso que o narrador não se furta, quando necessário, ao uso de expressões populares, de modo especial as cristalizadas pela cultura, como provérbios e ditados. Esse procedimento visa a mostrar a verdadeira identidade das personagens, em sua maioria voltadas para a matéria, uma vez que pensam apenas o lucro, o enriquecimento ilícito, como se verifica pela exploração do garimpo por parte do Pastor e, nomeadamente, pelo fato de ele espoliar os garimpeiros que bamburram, ou pela verdadeira escravidão instalada por Bambico em sua fazenda.

Portanto, segundo nossa leitura crítica de Sangue verde, podemos afirmar que se trata de um romance ímpar, que não encontra similar na literatura brasileira, uma vez que encerra, em sua construtura, um momento histórico da vida brasileira que, de outra forma, não seria devidamente cristalizada em linguagem e em discurso ficcional. Além disso, é um romance ímpar, inusitado em nossas letras, pela forma singular de narrar, em que os fios narrativos ramificam-se ao extremo, sem, entretanto, perderem-se no subsolo do discurso narrativo, uma vez que, ao final, todas as pontas se esclarecem, clara ou sutilmente, como o requer uma grande obra de arte narrativa. 

A grandiosidade estética de Sangue verde, todavia, só pode ser sorvida pelo leitor que proceder a uma leitura atenta, que se fará somente pela história ou que a aliará ao lado estético que ela encerra e que, certamente, será responsável pelo imensurável prazer do ler. 

PROFESSOR DOUTOR JOSÉ FERNANDES - GOIÂNIA 
 
* José Fernandes é doutor em Letras pela UFRJ e membro da Academia Goiana de Letras, nasceu a 18 de março de 1946, em Alto Rio Doce, Minas Gerais, é graduado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Mestre em Letras pela UFSC. Foi professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, de 1973 a 1983, e da Universidade Federal de Goiás, de 1983 a 1995, quando se aposentou. Publicou muitos livros, destacando-se na poesia e no ensaio sobre literatura, em especial sobre a poética.

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