O CARTEIRO - CONTO


Nunca recebera uma carta. Quanto sonhou com o dia em que o carteiro chegaria, em frente ao seu portão, e anunciaria, com a voz cantante em falsete:

__ Carta! Carta!

Ou do florista:

__ Encomenda para a senhorita x – e entregava-lhe um buquê de cravos. Cravos perfumosos, rubros, cor de sangue e de paixão.

Pobre Magali! Era tímida demais. Feia demais – dizia-se! Quem lhe escreveria uma carta ou lhe mandaria cravos? Os dias corriam, longos, enfadonhos e cada vez mais tristes, despidos de esperança e fantasia. 

__ Minha filha, está um dia tão bonito! Por que você não vai passear, encontrar com suas amigas? Devem estar na sorveteria. Põe um vestido bonito, arrume os cabelos, são tão lindos! Parecem asas de tiziu. O vestido verde! Com ele, teus cabelos brilham ainda mais!

__ Cabelos, mamãe? De que me servem cabelos negros como asas de tiziu? Olhe para mim! 

__ Ficar entocada em casa, se escondendo do mundo, não resolve. Ninguém é feio, minha filha. E você é tão jovem! Viva! 

__ Prefiro a companhia dos livros. Eles não riem de mim. Não me chamam de saracura míope.

__ Não leve tão a sério o que esses moleques dizem. Muita água corre por debaixo de cada ponte! O tempo opera mudanças. Eu também me sentia assim quando tinha tua idade. 

__ Ora, mamãe, você é tão bonita!

__ Lembra da história do patinho feio?

__ Por favor, mãe, quero ficar sozinha.

Patinho feio! Era só o que faltava! Como se não tivesse espelho! Por mais que se olhasse, nada encontrava que a animasse.

Se pudesse, Magali faria com que a noite de sábado desaparecesse do calendário. Tinha certeza que seria um pesadelo! Formatura! Bateu pé, chorou, disse que não iria àquele baile nem amarrada.

__ Não ir ao seu baile de formatura? Está fora de cogitação. Você vai, nem que seja amarrada. Portanto, minha filha, trate de escolher uma roupa linda. Quero você com o vestido mais bonito. Já marquei cabeleireira, maquiagem e manicure. Anime-se!

Ela já sabia o que ia acontecer: ficaria em um canto, suportando os olhares piedosos das outras moças, o riso de escárnio dos rapazes e as piadinhas maldosas: “A saracura míope gastou uma grana em vão, não se toca que não dá pra fazer milagre.” 

Pressionada pela família, lá vai a saracura míope à procura de milagre! Roupa cara, limpeza de pele, massagem, maquiagem, cabeleireira, manicure. Caracas! Que tédio! Que desperdício de dinheiro! Tudo por uma idiotice! Formatura! Estava terminando o ensino médio, só isso! Para que tanta pompa?

__ Vamos, minha filha! Já estamos atrasados! Até tua mãe já está pronta!

Sua mãe já estava pronta! Era sempre a primeira a se arrumar! Quando se tratava de festa, a dona Olga era pontualíssima! Imagine perder de ver todos, em todos os detalhes e ficar sem assunto a semana inteira. Jamais! Ela sabia detalhes de cada vestido das festas, acessórios, sapatos que não combinavam, bolsas que eram cafonas, joias falsas. Nada passava despercebido! Tinha culpa de ter bom-gosto, defendia-se, quando era criticada por alguém da família.

O salão já estava cheio. Moças desfilavam seus belos vestidos, matronas comentavam sobre as filhas, do quanto eram bonitas, cheias de orgulho! Rapazes enfileirados, apoiados no que estivesse ao alcance, fazendo pose de sedutores. Aquele evento era quase que uma apresentação dos jovens à sociedade. E todos queriam exibir o que tinham de mais valioso: os filhos e não mediam esforços, melhor dizendo, despesas! Pelo menos era essa a justificativa para tanto gasto.

Que aquela noite terminasse logo, era só o que desejava. Boa parte do tempo, passara no banheiro e quando saía, lá vinha o tio ou o pai e até o irmão, querendo amenizar o vexatório chá de cadeira que ela estava tomando. O que só fazia com que Magali se sentisse ainda pior. 

Quando, finalmente, a mãe concordou em ir embora, já era quase fim de baile. Magali, saiu tão apressada que acabou torcendo o pé e rolando escada abaixo. Pronto! Agora fechara a noite com chave de ouro! Chorar? Diante dos olhares compadecidos, caiu na gargalhada, nos olhos, um brilho de satisfação, agora tinham um pouco mais para rir! Que rissem à vontade, sem constrangimento! Os olhos da mãe, faiscando fúria, eram hilários. Divertiu-se, Magali. Chorar de tanto rir! Pela primeira vez, divertiu-se pra valer! Sentada no chão, tirou os sapatos, levantou-se e rodopiou como se dançasse uma valsa. Quanto mais percebia os olhares atônitos dos espectadores, mais dançava.

__ Tua filha enlouqueceu, mulher. Já era piada de todos, agora então! – dizia o pai.

__ Vá buscá-la, seu imprestável! – murmurou, entre dentes, a mulher, coberta de vergonha pelo vexame dado pela saracura míope. 

No carro, todos estavam mudos, exceto Magali que continuava a rir. Estava se divertindo às custas dos que riam dela, que de tão surpresos com sua reação, tinham no rosto um ar de completa imbecilidade. O irmão não se conteve mais e também caiu na risada, para desespero da mãe que estava à beira de um ataque de nervos.

__ Tanto dinheiro gasto para acabar nisto! Sua desengonçada! Você não tem o que te arrume! De que adianta eu me esforçar? Responda! Você fez isso para me envergonhar, não foi, sua ingrata? – gritava, histérica, dona Olga, já com o elaborado penteado despencando do alto de sua cabeça e o rosto, uma máscara cômica pelo rímel que escorria misturado às lágrimas de raiva, traçando sulcos na face crispada.

Na manhã seguinte, a saracura míope acordou se sentido ótima. Tomou um banho demorado, enquanto cantarolava uma canção alegre. Desta vez, permitiu que as mãos corressem pelo corpo, alisando, parando aqui e acolá, numa descoberta deliciosa. Nem era tão magra! Saracura? Qual! Tinha pernas bonitas, via-as pela primeira vez. Os olhos, também, achou-os belos. Pena ficarem escondidos por detrás de grossas lentes. Olhou-se de todos os jeitos, buscou-se no espelho e, ali, descobriu-se. E achou-se bela! Tinha o adorno que precisava, o sorriso. Não teve pressa em sair do quarto, sabia que a mãe a esperava e que o discurso seria longo. “Hoje não!” – pensou. 

__ Hoje, eu começo minha história! Chega de lamurias. Feia? Saracura míope? Pode até ser, mas decidida a ser feliz! 

Pela primeira vez, sem que a mãe a obrigasse, o rosto recebeu uma maquiagem leve, que um baton, quase cor de boca, valorizou. O vestido floral de cores claras, o cabelo negro caindo como uma cascata por sobre os ombros e um par de sandálias brancas ficaram perfeitos.

__ Estou pronta! Que venha a fera! – murmurou, dando mais uma olhada em direção ao espelho, e dirigiu-se à sala para tomar o café da manhã. Um sorriso estampado no rosto.

Os olhares de espanto da família animaram ainda mais a moça. Todos mudos, tomaram o café da manhã sem que a mãe ou o pai dissessem uma única palavra sobre o episódio, em paz. Terminada a refeição matinal, Magali comunicou que ia sair, daria um passeio, sem destino certo. Sairia a caminhar pelas ruas, aonde iria? A todos os lugares que sentisse vontade, não tinha hora para chegar. O dia estava muito bonito, queria aproveitá-lo até o último fiapo de sol.

__ Mamãe, aquela conta poupança que você fez para mim, está ativa?

__ Sim, está – mal conseguiu responder. __ Você quer dinheiro, para quê? – perguntou em um sussurro.

__ Não sei ao certo. Mas se me der vontade de comprar algo, é bom estar prevenida, você não acha? Posso gastar um pouco, não é?

__ Claro que sim. Vou buscar o cartão.

Em poucos minutos, já estava na rua, os olhos brilhando, sorriam, cabelos esvoaçando, livre!

Na rua, diante de uma construção de três andares, para e lê atentamente a placa: Dr Tiago Flores, clínico geral. Não hesita, entra resoluta, hora de gastar o dinheiro que a mãe havia depositado em uma conta em seu nome. Era dela, não era? Então usaria. Do jeito que melhor lhe aprouvesse. 

Quando Magali retornou à casa, era fim de tarde, a mesa do jantar estava posta, o pai e a mãe bebericavam um drink Martini com uma exuberante cereja espetada por um palito de prata, enquanto o irmão distraía-se diante do computador.

Os olhares dos familiares eram cheios de expectativa e curiosidade, no entanto, todas as perguntas ficaram presas e não saíram da boca. Limitaram-se a um “Olá, filha.”. Durante o jantar, olhares furtivos eram lançados em sua direção por todos. Pareciam pouco à vontade, com receio de abordá-la com muitas perguntas. Os diálogos constituíam-se de frases curtas e soltas vez por outra. Até a mãe, que sempre estava cheia de novidades, parecia não ter nada a dizer. “Ótimo!” – pensou Magali. “Assim é melhor.”

Terminado o jantar, dirigiu-se ao quarto e jogou-se sobre a cama, sem dúvida era muito positivo o saldo do dia. Tomara importantes decisões. Mas por enquanto era bom que ficassem em segredo, mesmo que a vontade de compartilhar quase lhe explodisse o peito!

A semana seguinte foi uma espécie de ritual para Magali, saía todas as tardes, entrava em lojas, livrarias, biblioteca, deliciava-se com um sorvete, no parque lia, até na escola em que estudara a vida inteira, ela foi. Ali, andou pelos corredores, entrou nas salas de aula, conversou com professores, enfim, estava exorcizando seus fantasmas, esses, não tinham mais lugar em sua vida.

Em de seus passeios deparou-se com o irmão que a convidou para um cineminha. Terminada a sessão, ambos caminharam lado a lado de volta para casa, sem que uma única palavra fosse dita, em um entendimento mútuo e mudo. Ao chegarem à porta, foi abraçada, “ Seja o quer que esteja planejando, conte comigo” – ciciou-lhe ao ouvido.

__ Maninha, entro de férias na próxima semana e, como não aceito uma recusa, comprei duas passagens para São Luis, no Maranhão, uma para você. Mas antes do nordeste, dois dias em Sorocaba, tenho amigos que quero rever. 

A mãe aplaudiu, entusiasmada.

__ Que ótima ideia, meu filho! Vocês irão se divertir muito.

__ Acho que meus recursos financeiros não me permitem – disse Magali sorrindo.

__ Não se preocupe, minha filha. Eu disponibilizo esses recursos.

__ Mas, papai, você não estava contando com ...

__ Por favor, minha filha, faço questão. Você merece este mimo.

Magali levanta-se e abraça Pedro, o irmão que se tornara não só um confidente, mas também seu cúmplice.

Uma semana depois partiram para Sorocaba. As férias duraram exatos vinte e cinco dias, dez dos quais passados em Sorocaba, inclusive no Hospital Oftalmológico de Sorocaba, onde Magali, por orientação do médico que consultara em seu primeiro dia de liberdade, buscara o meio de livrar-se das pesadas lentes que tanto incomodavam.

__ Minha filha, seus óculos ... você os perdeu?

__ Não preciso mais deles!

__ Como assim, não precisa mais deles?

__ Cirurgia, mamãe, cirurgia.

__ Não sei se me zango com vocês dois ou ...

__ Não se zangue! Alegre-se com minha alegria!

__ O patinho feio transformou-se! Estou feliz! Vamos dar aquela festa! – bradava dona Olga, empolgadíssima com a transformação da filha e ansiosa por exibi-la.

__ Sem festa, mamãe! Preciso conversar com você e papai.

Em meio há um jantar cheio de conversas sobre a cirurgia oftalmológica e os passeios feitos, Magali anunciou que deixaria a casa dos pais para estudar, antes da cirurgia fizera vestibular. Foi apoiada prontamente. E na semana seguinte, lá se ia Magali, rumo a Sorocaba.

A casa de dona Olga está em polvorosa, a pequena cidade está em polvorosa. Todos estão ocupados com os preparativos para receber a única neurocirurgiã do lugar, Magali.

No dia seguinte à festa, Magali é acordada pela voz cantante em falsete do carteiro:

__ Carta para a senhorita Magali! Carta para a senhorita Magali.

Espia pela janela e vê a mãe recebendo a correspondência. Volta à cama e adormece novamente, sem curiosidade,sem emoção.

Quando levanta-se, a mesa do café ainda está posta, esperando por ela. Sobre a toalha branca, diante da xícara, um imenso ramalhete de cravos e, ao lado, uma carta. Abre-a, sorri com desdém. 

A declaração de amor, feita pelo garoto que a apelidara de saracura míope, era no mínimo cômica. Tira do vaso os cravos perfumosos, rubros, cor de sangue e joga-os na lixeira. Descobrira ser alérgica ao pólen das flores, junto vai também a carta.

A vinda do carteiro e do florista tardou demais. Carteiro! A cidade estava mesmo muito atrasada. Era a mesma de sua meninice. Ela não, mudara. Não estava interessada em cartas ou cravos perfumosos, rubros, cor de sangue e de paixão.

Duas semanas depois, estava de partida a saracura míope, em busca de universo maior, menos provinciano. Precisava de um palco maior, de mais luzes, todos os dias. Isso só encontraria em um hospital, equipado com um grande centro cirúrgico, onde pudesse se sentir estrela. A chegada diária do carteiro e do florista contribuiu para que tomasse de vez a decisão. As cartas, nem as lia. Odiava cravos, especialmente, os vermelhos.

ODENILDE N. MARTINS

0 comentários:

Postar um comentário